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Vem aí soja com altos teores de ácido oleico


Decio Luiz Gazzoni

          A soja com alto teor de ácido oleico — denominada HOSB, do inglês high-oleic soybean — apresenta teor de ácido oleico, que supera 70–75% nas cultivares comercialmente disponíveis nos Estados Unidos. Essa composição é quase a mesma do azeite de oliva, o mais apreciado pelos consumidores.

          Nas cultivares convencionais, a composição de ácidos graxos inclui 20- 23% de ácido oleico, que é monoinsaturado, ou seja, na sua fórmula existe apenas uma ligação entre átomos de carbono com liga dupla. Também contém 50- 53% de ácido linoleico e 8 – 10% de ácido linolênico, que são poli-insaturados, com duas ligas duplas entre átomos de carbono. A presença de duas ligas duplas torna esses ácidos mais facilmente oxidáveis

          Assim, a elevação do teor de ácido oleico, associada à redução das concentrações de linoleico e linolênico, aumenta significativamente a estabilidade oxidativa do óleo. Dessa forma, ao reduzir a taxa de oxidação, reduz substancialmente a formação de compostos que geram aromas e sabores indesejáveis.

 

Bases genéticas e desenvolvimento de cultivares

          A chave genética da HOSB está em dois genes codificadores da enzima delta-12 desaturase de ácidos graxos: FAD2-1A e FAD2-1B. Mutações nesses dois genes, quando combinadas em homozigose, elevam o teor de ácido oleico para 75% a 85%, comparado aos 20% típicos da soja convencional. Mutações em apenas um dos genes produzem aumentos modestos, insuficientes para uso comercial, sendo obrigatória a combinação das duas versões mutantes para viabilizar a característica alto-oleico de forma estável e expressiva

          Esse mecanismo genético relativamente simples — duas mutações  em genes amplamente conhecidos — permite tanto rotas biotecnológicas (transgenia e edição gênica) quanto o melhoramento convencional não-OGM. Linhas não-transgênicas, com até 85% de ácido oleico já foram desenvolvidas por melhoramento convencional, utilizando marcadores moleculares para acelerar o processo, sem a necessidade dos processos regulatórios custosos associados às cultivares transgênicas. No mercado norte-americano, já estão disponíveis três cultivares transgênicas, juntamente com a pioneira Soyleic® (da Universidade de Missouri), obtida por melhoramento clássico, não-OGM.

 

Bom para a saúde!

          O ácido oleico é um ácido graxo pertencente ao grupo ômega-9, monoinsaturado, que é um redutor do teor do colesterol LDL (considerado o “mau” colesterol), o que reduz o risco de acidentes cardiovasculares, conferindo ao óleo de HOSB perfil nutricional superior ao do óleo convencional. Há uma vantagem adicional do ponto de vista da saúde, porque a maior estabilidade oxidativa do ácido oleico elimina ou reduz substancialmente a necessidade de hidrogenação parcial durante o processamento.

          É a hidrogenação que forma gorduras trans, consideradas nocivas à saúde. Esse tipo de gordura é citado na literatura médica como responsável pelo aumento do risco de doenças cardiovasculares, acidentes vascular-cerebral, diabetes tipo 2 e resistência à insulina, síndrome metabólica e obesidade, além da inflamação orgânica crônica. Assim as cultivares HOSB respondem diretamente à demanda dos consumidores e às crescentes exigências regulatórias, relativamente à redução ou eliminação de ácidos graxos trans em alimentos industrializados.

          A estabilidade térmica também é notavelmente superior. O óleo HOSB suporta temperaturas de fritura por períodos significativamente mais longos, sem degradação, o que reduz o consumo de óleo na cozinha, diminui a formação de compostos de degradação oxidativa e resulta em produto final de melhor qualidade sensorial e nutricional. Para redes de alimentação rápida e a indústria de processamento de alimentos, esse ganho operacional representa redução direta de custos e melhora da qualidade do produto final.

 

Biodiesel

          O biodiesel derivado de óleo de soja convencional apresenta dois problemas técnicos: baixa estabilidade oxidativa e propriedades inadequadas de escoamento, em baixas temperaturas. O elevado teor de ácidos graxos poli-insaturados — notadamente linoleico e linolênico — torna o biodiesel de soja convencional suscetível à oxidação, resultando em aumento de viscosidade, formação de gomas e entupimento de filtros e injetores, necessitando de aditivos para atender às normas.

          Já o óleo de soja com alto teor de ácido oleico apresenta estabilidade oxidativa significativamente superior, sendo valioso para aplicações em combustíveis e produtos industriais, além de melhorar o comportamento do combustível em baixas temperaturas. Para o Brasil, onde o óleo de soja responde por aproximadamente 85% da produção nacional de biodiesel, e a mistura obrigatória avança rumo ao B16, a adoção progressiva de cultivares alto-oleico representaria ganho simultâneo em qualidade do combustível, redução do uso de antioxidantes sintéticos e maior conformidade com as normas técnicas internacionais (EN 14214), fortalecendo a competitividade do biodiesel brasileiro nos mercados externos.

 

Aplicações industriais

          A versatilidade do ácido oleico abre múltiplas frentes de valorização industrial. O óleo de soja alto-oleico tem valor em diversas aplicações industriais não alimentares, como lubrificantes de base biológica e fluidos industriais, com produtos em desenvolvimento ou em fase de comercialização por vários fabricantes. Sua viscosidade adequada em baixas temperaturas, superior estabilidade termooxidativa e biodegradabilidade o tornam atraente para lubrificantes de alto desempenho, óleos de correntes e trilhos, fluidos hidráulicos e graxas — aplicações em que a soja convencional se qualificava apenas com modificação química custosa

          Na indústria oleoquímica, o segmento industrial beneficia-se de sua utilização como lubrificante biodegradável e na produção de oleoquímicos, diversificando a base de aplicações e atraindo investimentos expressivos em pesquisa e desenvolvimento. Setores farmacêutico e cosmético também se beneficiam, pois o óleo HOSB serve como veículo em formulações farmacêuticas e ingrediente emoliente em cosméticos, graças à sua pureza, estabilidade e compatibilidade cutânea.

 

Mercado e expansão

          Aproximadamente 0,7 milhão de hectares (Mha) de HOSB foram cultivados nos EUA em 2025, com projeção de 1,5 Mha até 2030, com avanços expressivos ao longo da próxima década. Em média, os prêmios pagos ao produtor variam entre US$0,50 e US$1,15 por bushel sobre a cotação da soja convencional, dependendo da região e do comprador. O mercado global do óleo de soja alto-oleico atingiu US$3,26 bilhões em 2024, com taxa de crescimento anual composta de 8,1%, e projeta-se que alcance US$6,37 bilhões até 2030. O crescimento é impulsionado principalmente pela indústria alimentícia, também avançando na diversificação para aplicações industriais, farmacêuticas e cosméticas.

          No Brasil, cultivares com perfil diferenciado de ácidos graxos foram identificadas desde os anos 1990, como a EMBRAPA-4, com teor de ácido oleico próximo a 40%. Contudo, o desenvolvimento de cultivares comerciais com teor superior a 70% ainda está em estágio inicial no país. Considerando que o Brasil deve produzir cerca de 180 milhões de toneladas de soja na safra 2026/27, com área plantada estimada em 50 Mha, mesmo uma participação modesta de HOSB representaria um volume expressivo de óleo de alto valor no mercado global. A implementação de cadeias de identidade preservada (IP), com segregação da HOSB desde a colheita até o processamento, é pré-requisito para a captura do prêmio de mercado — desafio logístico expressivo. No entanto é superável, exigindo investimentos em infraestrutura e coordenação entre produtores, cooperativas e processadores.

          O crescimento do segmento de alimentos funcionais, a pressão regulatória sobre gorduras trans, a busca das indústrias alimentícia e dos demais setores por óleos estáveis para fritura, sem necessidade de hidrogenação, e a demanda crescente por insumos de base biológica em aplicações industriais e energéticas, posicionam a soja alto-oleico como um nicho de agregação de valor com potencial crescente, tanto nos mercados de exportação quanto no consumo doméstico brasileiro. Projetando-se o longo prazo, além da década de 2040, é possível que a soja HSOB seja dominante no mercado, pelas vantagens que apresenta.

 

O autor é engenheiro agrônomo, membro do Conselho Científico Agro Sustentável, do Comitê Estratégico Soja Brasil e da Academia Brasileira de Ciência Agronômica.

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