Eu nasci em uma pequena propriedade rural e por lá passei grande parte da minha infância e adolescência. Nesse ambiente, observei familiares e conhecidos crescerem aos poucos, aumentando seu faturamento, suas propriedades e seus negócios.
Diante disso, um fato que sempre me chamava a atenção era a inexistência de uma separação clara entre o que eram gastos pessoais, despesas da propriedade ou do negócio, custos gerais, investimentos de curto prazo e investimentos de longo prazo.
Ali, eu já observava que existia uma barreira entre o conhecimento financeiro e a gestão das empresas rurais, mesmo aquelas menores. Vi produtores pegarem financiamentos, pagarem suas dívidas e crescerem em bons momentos do mercado. Também vi produtores se endividarem quando o cenário mudou. Alguns chegaram a vender suas propriedades, investir parte do recurso em ativos de menor risco ou adquirir propriedades menores para utilizar o capital restante no pagamento das dívidas.
Nos últimos anos, esse cenário passou a aparecer de forma ainda mais clara. Temos observado um número expressivo de produtores rurais e empresas ligadas ao agronegócio entrando em recuperação judicial, com níveis elevados de endividamento e dificuldade para geração de caixa e pagamento de suas obrigações.
E os números mostram que não se trata apenas de uma percepção. Em 2024, o agronegócio brasileiro registrou 1.272 pedidos de recuperação judicial. Em 2025, foram 1.990 pedidos, crescimento de 56,4% em apenas um ano e o maior volume da série histórica iniciada pela Serasa Experian em 2021. Já no primeiro trimestre de 2026 foram registrados outros 474 pedidos, número 21,9% superior ao mesmo período de 2025. A inadimplência da população rural também chegou a 8,8% no primeiro trimestre de 2026.
É claro que existem fatores externos importantes por trás desse movimento. O produtor vem convivendo com custos elevados de produção, volatilidade nos preços das commodities, eventos climáticos, maior dificuldade na rolagem das dívidas e um crédito mais seletivo. Os fertilizantes, por exemplo, continuam pressionando os custos e o Brasil ainda depende fortemente do mercado externo, tendo importado cerca de 93% dos fertilizantes utilizados no país em 2025.
Além disso, o custo financeiro continua relevante. Mesmo após o início da redução dos juros, a taxa Selic estava em 14% ao ano em agosto de 2026, ainda em um patamar elevado para empresas e produtores que dependem constantemente de capital para custeio, investimento ou rolagem de dívidas.
Inclusive, a situação do endividamento rural levou o governo a criar, em julho de 2026, novas linhas para composição e renegociação de dívidas de produtores afetados por perdas de safra, eventos climáticos e redução dos preços de comercialização, o que demonstra que o problema financeiro no campo ganhou uma dimensão relevante.
Mas será que esses são os únicos fatores?
Existe uma palavra que, para muitos produtores e empresários, ainda pode trazer uma percepção de burocracia ou algo distante da realidade do campo: governança.
Mas, de forma simples, podemos pensar na governança como a cerca e a porteira de uma fazenda.
A Gestão e a Operação são aquilo que acontece dentro do pasto ou da roça: colocar o gado para pastar, tratar dos animais, abastecer o trator, comprar insumos, plantar, colher e realizar o serviço do dia a dia.
A Governança são as cercas, a porteira e o mapa da terra:
• A porteira: define quem entra, quem sai e quem tem autorização para tomar determinadas decisões.
• As cercas: delimitam até onde cada um pode ir, evitando que o gado invada a área vizinha ou que uma decisão ultrapasse determinados limites.
• O mapa da terra: ajuda a entender onde estamos, quais são os limites da propriedade, onde queremos chegar e o que precisa ser preservado para que aquele negócio permaneça produtivo nas próximas safras.
De forma geral, será que a governança está sendo realizada da melhor forma dentro dos negócios do agro?
Será que as decisões estão considerando adequadamente os riscos ou estamos olhando apenas para o resultado da próxima safra?
Será que a cultura de ainda misturar despesas pessoais com os custos da empresa não afeta também a priorização dos pagamentos e a própria visão sobre a real rentabilidade do negócio?
Será que a estratégia de compra de insumos em larga escala não poderia ser melhor planejada?
Será que instrumentos de proteção, como o hedge, estão sendo utilizados da melhor forma para reduzir a exposição às oscilações dos preços de venda?
Será que aquele crédito que eu peguei era realmente necessário naquele momento?
Será que precisava comprar aquela nova máquina, ampliar a propriedade ou aumentar a produção naquele ano, ou seria melhor segurar o crescimento e esperar uma condição econômica e financeira mais favorável?
E mais importante: antes de tomar essas decisões, alguém colocou na mesa os diferentes cenários e perguntou o que aconteceria se o preço caísse, o custo aumentasse, a produtividade fosse menor ou os juros permanecessem elevados?
Sei que os desafios do agro estão muito além desses pontos. Existem fatores climáticos, econômicos e de mercado que nenhuma empresa ou produtor consegue controlar.
Governança não vai impedir uma seca, controlar o preço de uma commodity ou reduzir a taxa de juros.
Mas uma boa governança pode fazer com que o produtor ou empresário esteja mais preparado quando esses problemas aparecerem.
Pode trazer uma visão melhor do caixa, do endividamento, dos riscos, dos investimentos e das prioridades do negócio. Pode fazer com que decisões relevantes sejam discutidas antes de serem tomadas e não apenas quando o problema já aconteceu.
Não acredito que exista um único desafio central para o agro. O que existe é a necessidade de uma visão cada vez mais ampla do negócio.
Gestão financeira, avaliação de riscos, planejamento, proteção de preços, controle dos investimentos, separação entre patrimônio pessoal e empresarial e qualidade na tomada de decisão fazem parte dessa discussão.
Principalmente para pequenos e médios produtores e empresários, essa visão pode ajudar a identificar riscos de forma antecipada e evitar decisões de curto prazo que, apesar de parecerem boas durante uma safra favorável, podem comprometer o negócio por muitos anos.
Talvez, antes de perguntarmos apenas quanto uma propriedade ou empresa do agro consegue produzir, seja necessário perguntar também:
Como está sendo feita a gestão?