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O novo jornalista também produz conteúdo?


Flavia Macedo

Repórter ou creator? No digital, talvez você precise ser os dois.

Nos últimos meses, uma coisa começou a acontecer com frequência na minha rotina: criadores de conteúdo e influenciadores, que querem começar ou já atuam no digital, passaram a compartilhar comigo vídeos, roteiros ou apenas ideias, perguntando: “o que você acha desse conteúdo para o Instagram?”. E isso diz muito sobre o momento que estamos vivendo.

Sejam bem-vindos a mais uma coluna da Flá do Agro.

Entre esses compartilhamentos e pedidos de opinião, uma jornalista também me procurou. Ela me enviou uma reportagem feita durante uma cobertura de feira agropecuária. O material estava ótimo para TV: off bem escrito, passagem elegante, informação organizada, entrevistas técnicas, imagens bonitas. Linguagem clássica de reportagem. Mas quando ela postou no Instagram, ficou aquela dúvida que hoje ronda boa parte das redações: “Será que esse formato funciona nas redes?”.

E talvez essa seja uma das maiores transformações da comunicação atual. O jornalista não é mais apenas repórter. Hoje ele também virou criador de conteúdo, apresentador, distribuidor de mídia e, muitas vezes, sua própria marca, inclusive, é o meu caso.

Não é que o profissional seja, de fato, obrigado a produzir conteúdo. Mas ele já sabe, ou começa a se questionar, se não deveria estar postando Reels, além de assinar uma reportagem.

Mas aqui ainda cabe uma ressalva: profissionais com mais de cinco anos de carreira e um trabalho já consolidado no mercado talvez possam dizer ao contratante “isso eu não faço”. Já os recém-formados, ou mesmo quem tenta se recolocar no mercado de trabalho, provavelmente não terão essa opção.

Isso porque as vagas já não são mais apenas para repórter, mas para o profissional chamado jornalista multimídia e multiplataforma. Na prática, ele precisa produzir para o veículo, mas também para as redes sociais.

O celular virou redação portátil. O Instagram virou canal. O LinkedIn virou vitrine profissional. E o YouTube, em muitos casos, já faz o papel da antiga televisão.

Segundo o relatório Digital News Report, do Reuters Institute, mais de 55% das pessoas já consomem notícias principalmente pelas redes sociais e plataformas digitais. Ao mesmo tempo, a HubSpot apontou que vídeos curtos seguem entre os formatos com maior retorno de engajamento na internet.

O que entendemos disso? Não basta apenas informar. Hoje também é preciso entender formato, retenção, narrativa e comportamento de audiência.

E aqui entra um ponto importante: isso não significa abandonar o jornalismo. Muito pelo contrário. A qualidade do texto, a apuração, o cuidado com a informação e a credibilidade continuam sendo diferenciais gigantescos em um ambiente digital lotado de conteúdo raso.

O problema é que, muitas vezes, o jornalista tenta levar exatamente o mesmo formato da TV para uma plataforma onde a lógica de consumo funciona de outro jeito.

Mas se acalme, meu colega: não existe certo ou errado. Existe estratégia.

Se o profissional quer se posicionar como jornalista clássico, mais analítico e mais formal, ele pode seguir esse caminho. E funciona. Existem nomes fortíssimos que construíram autoridade exatamente assim, inclusive no agro.

A diferença é que, nas redes sociais, a constância pesa quase tanto quanto a qualidade. Mas isso não significa que seja preciso postar todos os dias para construir autoridade. Isso era coisa do algoritmo do passado. Agora, qualidade de conteúdo e retenção, principalmente nos três primeiros segundos, contam mais que volume.

No entanto, se a ideia é conversar com uma audiência mais ampla, aumentar alcance, criar conexão ou transformar o perfil em uma mídia própria, é preciso adaptar linguagem, ritmo e formato. Porque a internet não funciona como um telejornal.

No digital, os primeiros segundos são como uma “porteira de retenção”. Se a pessoa não entra, ela desliza o dedo e vai embora. É quase como em uma feira agropecuária, se o estande não chama atenção rápido, o visitante passa reto pelo corredor.

E isso vale especialmente no agro. Hoje, um agrônomo pode e, na minha opinião, deve virar creator. Uma pesquisadora pode transformar conhecimento técnico em vídeos curtos. Um jornalista pode usar a experiência de reportagem para criar análises, bastidores, contexto e interpretação. O conhecimento técnico ganhou views.

Mas o jornalista sai na frente. Porque ele já é um contador de histórias. Já tem essa skill desenhada na rotina. Basta ampliar o olhar para um novo formato e passar a tesoura, de forma estratégica. Encurte seu VT em, no máximo, 1'30". Mas eu já recomendo que entregue em apenas um minuto, o algoritmo agradece e te distribui melhor.

E se você é jornalista do impresso, o desafio será transformar seu texto em roteiro, frase a frase, e se aventurar com um tripé, luz e microfone. E hoje tem equipamento bom e acessível.

E digo mais: além de abrir um novo leque profissional, isso pode te trazer outras opções de renda. O jornalista pode ser host de podcast, apresentar eventos e fazer a comunicação de empresas agropecuárias. As marcas procuram, cada vez mais, profissionais que consigam unir autoridade com linguagem humanizada. 

E talvez esse seja o maior ponto dessa conversa toda: identidade. O conteúdo precisa ter a cara de quem comunica. Tem jornalista que vai crescer sendo extremamente formal. Outros vão se encontrar em conteúdos usando humor, analogias e bastidores. 

O erro é tentar copiar formatos sem entender a própria essência.

Eu mesma percebo isso no meu trabalho. Quando estou em uma cobertura para televisão, existe uma linguagem. Para transformar aquele mesmo tema em um Reels para o meu Instagram, já é outra lógica. Às vezes a reportagem vira bastidor. Às vezes vira opinião. Ou então faço um vídeo rápido, com uma frase forte e cortes acelerados.

A pauta é a mesma. A narrativa muda.

E talvez o novo jornalista seja exatamente isso: alguém que sabe traduzir a mesma história em diferentes formatos, sem perder credibilidade no caminho.

Para encerrar e também incentivar quem estiver lendo esta coluna, vamos olhar para os números do mercado. Em 2025, a creator economy, que engloba influenciadores, agências, social mídia, filmmakers e diversos profissionais envolvidos no digital, movimentou mais de US$ 200 bilhões no mundo, com projeções que apontam para um mercado acima de US$ 500 bilhões nos próximos anos.

No Brasil, esse setor já ultrapassa US$ 5 bilhões e cresce em ritmo acelerado, impulsionado por um país que hoje ocupa a posição de segundo maior mercado de influenciadores do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos.

E sempre vale repetir: “Eu acredito que com criatividade no digital dá pra vender qualquer produto ou serviço no agro contando uma boa história.”

Mini bio
Flávia Macedo é jornalista especializada em agronegócio e marketing digital, com mais de dez anos de experiência em comunicação no setor. Fundadora do perfil Flá do Agro, atua como comunicadora e estrategista em marketing digital, mostrando como criatividade e posicionamento podem gerar valor e vendas para o agronegócio. Foi âncora e repórter do Canal Rural e atuou também como repórter especializada da Revista Forbes (Forbes Agro). Atualmente é repórter correspondente do Sudeste para o Portal Agrolink.

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