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Quando o passado custa mais que o futuro


IZNER HANNA GARCIA

O que são juros compostos e como eles impactam suas finanças?

 

Quando o passado custa mais que o futuro

 

Izner Hanna Garcia

 

 

Tempos atrás um amigo, em um fim de tarde caloroso e abafado, me encontrou extasiado e disse-me que tinha achado a fórmula da riqueza, o moto contínuo para fazer dinheiro.

 

Mas, enfim, entre cético e curioso perguntei: qual sua fórmula?

 

Ele respondeu: eu abri contas correntes em 4 bancos. Em cada um eu fiz 4 empréstimos: um crédito pessoal, um cheque especial, um cartão de crédito e um crédito imobiliário.

 

E?

 

Continuou ele: simples, com um crédito eu pagarei o outro e com o outro o seguinte e, assim, com esta ciranda, eu ficarei rico.

 

Bem, não é necessário estender qualquer análise para ver o quão idiota seria esta estratégia que, claro, resultaria na quebra irremediável do ‘gênio’.

 

Mas esta idiotice é tão visível assim ou se tornou um ponto cego quando analisamos a macroeconomia?

 

Vamos reter alguns dados para, depois, ao final, voltarmos neles.

 

O orçamento federal total dos Estados Unidos para o ano fiscal de 2026 é projetado em aproximadamente US$ 7,45 trilhões em despesas.

 

Detalhes do Orçamento de 2026

 

  • Despesas totais previstas: US$ 7,45 trilhões.
  • Receitas estimadas: US$ 5,60 trilhões.
  • Déficit projetado: Cerca de US$ 1,85 trilhão a US$ 1,9 trilhão para o ano fiscal completo.

 

O governo dos Estados Unidos gasta cerca de US$ 1,1 trilhão por ano (aproximadamente US$ 963 bilhões acumulados nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026) apenas para pagar os juros líquidos da dívida pública.

 

Somente para se ter uma comparação: O orçamento de defesa aprovado para os Estados Unidos em 2026 é de aproximadamente US$ 900 bilhões a US$ 901 bilhões.

 

Ou seja: os EUA vão gastar este ano mais em pagamento de juros do que em defesa sendo que, claro, seu orçamento de defesa é o maior do mundo.

 

A dívida pública total dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões (cerca de R$ 207 trilhões) pela primeira vez na história em agosto de 2026.

 

A dívida total dos Estados Unidos, somando os setores público e privado (indivíduos e empresas), está estimada em aproximadamente US$ 102 trilhões.

 

Deixemos estes números quietos por enquanto.

 

Vamos agora a um fato comentado mas pouco analisado: em agosto o Secretario do Tesouro (Scott Bessent) anunciou que o Tesouro norte americano irá dobrar a compra dos títulos da dívida pública (bônus) com vencimentos de 30 anos.

 

Perceba e pense: o devedor diz que vai resgatar (comprar) os títulos de sua dívida.

 

Parece uma medida de saneamento afinal se um devedor está resgatando sua dívida sua situação está melhorando.

 

Sim mas não.

 

A compra da dívida de longo prazo não será feita com “dinheiro” que o governo economizou ou gerou mas sim com a emissão de novos títulos só que, agora, de curto prazo.

 

Deixemos a macroeconomia e pensemos na microeconomia. O que você acharia de um devedor que passa a resgatar as notas promissórias que tem na praça com vencimento longo mas para pagar este resgate dá novas promissórias com vencimento mais curto?

 

Bem, a explicação da medida é que os títulos de longo prazo tiveram um aumento de sua curva de juros justamente porque, olhando o longo prazo, o endividamento norte americano e, mais, o viés de aumento imparável do déficit púbilco, os investidores estão exigindo um juro maior.

 

Como estes juros de longo prazo são a base para outros marcadores (como os juros das hipotecas) o Secretário do Tesouro está atuando para tentar esvaziar este movimento de alta para que a economia ‘sofra’ menos.

 

Bem, no dia do anúncio do Bessent o juro de longo prazo tinha tocado 5,350% ao ano e, agora, passado alguns dias de queda, na última sexta-feira (dia 28) o juro já estava de volta quase no mesmo patamar, em 5,208%.

 

Ou seja, o mercado não está confiando tanto nas medidas.

 

Esta manobra, se levada à efeito, poderá ter um efeito pior porque pode terminar por encurtar as obrigações do Tesouro dos EUA já que tira do mercado dívidas com 30 anos e cria dívidas com prazos de 1 ou 5 anos.

 

Agora voltemos aos números lá do começo.

 

102 trilhões de dólares é o endividamento da sociedade norte americana somando público e privado.

 

Entre vários percentuais de juros vamos estimar que se pague, em média, 6% ao ano. Nesta conta estamos falando que a dívida total dos EUA gera um custo de juros de 6,12 trilhões de dólares ao ano somente em juros.

 

Contudo, se está dívida vem sempre em aumento é de se concluir que as pessoas, empresas e governos não estão conseguindo amortizar nada do capital e, até, nem mesmo pagando os juros totais, rolando mais dívida para frente.

 

Tomando um PIB de 30 trilhões somente em juros os EUA consomem 20%.

 

Deixando o “economiquês” é óbvio em qualquer conta de padaria que está se aproximando o momento que esta situação será insustentável.

 

É óbvio que há contrapesos que ainda lastreiam a economia norte americana como o domínio do dólar como moeda de reserva e curso global, a preponderância geopolítica, sua projeção militar, sua inovação em várias áreas, seu poder de produção e alguns outros etcs.

 

Todavia, todos estes pontos vêm se fragilizando ao mesmo tempo. O teste militar recente dos EUA no Irã não está desenhando um bom quadro aos EUA. A inovação tecnológica já não é um monopólio dos EUA e a China está em seu encalço muito de perto ou, até, em pé de igualdade. O seu domínio do Oriente Médio, pós esta guerra com o Irã, está abalado. Sua preponderância geopolítica não está em seu melhor momento como nos mostra o exemplo do confronto direto com o Canadá.

 

Enfim, a medida do Secretario do Tesouro (Scott Bessent), homem do mercado financeiro egresso do grupo Soros, pode ser ‘genial’ sob a perspectiva de um fundo especulativo cujo objetivo é um ganho financeiro de curto prazo mas pode ser uma idiotice tremenda se considerada como uma política de Estado.

 

A aposta que a inovação da IA irá tirar os EUA de toda esta conjuntura, que irá gerar ganhos tão substanciais que esta relação dívida x PIB irá se diluir, parece (como tantas outras bolhas) uma ilusão onde a expectativa é maior que o futuro que virá.

 

Enfim, os EUA entraram em um modo de operação onde o seu passado (dívida é passado) é mais custoso que o seu futuro e isso é péssimo.

 

Izner Hanna Garcia, advogado, pós graduado FGV

 

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