A engenharia genética, que permite a manipulação do material genético dos organismos, surgiu em 1972, quando cientistas da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, conseguiram juntar o DNA de uma bactéria e de um vírus. Este resultado valeu ao líder do projeto, Dr. Paul Berg, o Prêmio Nobel de 1980. Como conseqüência destas pesquisas, o primeiro organismo transgênico, uma bactéria contendo gene de rã, foi produzido em 1973. Com isso abriram-se portas para se transferir certas características próprias de um organismo, para outro. A primeira utilização comercial desta nova tecnologia foi a produção de insulina humana em bactéria. Isto significa que um gene, responsável pela produção de insulina no organismo humano, foi transferido para uma bactéria, que adquiriu esta característica e passou a produzir insulina, que é purificada e usada por diabéticos. Esta insulina é mais segura e barata em relação à insulina usada anteriormente, isolada de animais. Hoje, mais de 400 genes de proteínas com potencial para o uso terapêutico na medicina humana já foram obtidos. Mais de 30 destes genes foram introduzidos em organismos transgênicos que geraram medicamentos aprovados e utilizados em várias partes do mundo.
Os animais transgênicos surgiram em 1980. Foram camundongos, gerados em experimentos conduzidos pelos americanos Jon Gordon e Frank Ruddle, que nesta ocasião criaram o termo “transgênico” (do inglês “transgenic”). Apenas cinco anos mais tarde é que animais de fazendas foram geneticamente modificados: coelhos, ovelhas e porcos. No entanto, ainda existem poucos exemplos de animais com características úteis para os pecuaristas. As pesquisas se voltaram para a produção de medicamentos no leite de vacas, cabras, porcas, etc.
Somente em 1984 é que as plantas transgênicas foram obtidas. No Brasil, a primeira planta transgênica foi produzida em 1986 pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. Nenhuma notícia sobre estas plantas, muito provavelmente as primeiras produzidas na América do Sul, foi veiculada nos jornais. Desde então, vários projetos vêm sendo conduzidos em praticamente todos os países desenvolvidos ou em desenvolvimento, para obter plantas com características úteis para os agricultores e consumidores.
Plantas transgênicas, tabacos resistente ao vírus do mosaico, começaram a ser cultivadas no campo, na China, no início dos anos 90. Em seguida, tomates transgênicos, contendo genes que retardam a degradação do fruto foram comercializados nos Estados Unidos. Estes tomates podem ficar um longo tempo fora da geladeira sem que se estraguem.
As primeiras plantas geradas para cultivo em grandes áreas, contêm genes para resistência a herbicidas e insetos, principalmente soja, algodão e canola. Estas plantas vêm sendo cultivadas em grandes áreas, principalmente nos Estados Unidos, Argentina, China e Canadá há mais de seis anos. A área plantada com plantas transgênicas cresceu ano após ano e hoje ocupa uma área em torno de 50 milhões de hectares, sendo consumidos por milhões de pessoas em todos os continentes. As primeiras plantas transgênicas resistentes a doenças foram liberadas para comercialização nos Estados Unidos em 1998. Foram mamoeiros resistentes ao vírus do mosaico. Estas plantas permitiram controlar a doença no Distrito de Puna, na ilha do Havaí, impedindo que se reproduzisse um desastre socio-econômico que havia ocorrido nos anos 50 em outra ilha do arquipélago. Na Embrapa, já foram obtidas plantas de feijão resistentes ao vírus do mosaico dourado, mamão resistente ao vírus da mancha anelar e batata resiste ao vírus Y. Existem vários outros projetos em andamento em universidades e outras instituições brasileiras.
Obter plantas resistentes a herbicidas é relativamente mais simples do que obter plantas resistentes a insetos, seca, doenças ou contendo características especiais para geração de produtos mais saudáveis. No entanto, muitas possibilidades estão sendo avaliadas. Têm-se obtido, por exemplo, plantas tolerantes a solos com alta salinidade, tolerantes à seca e geada, com maior absorção de nutrientes e menos dependentes de fertilizantes, com alto teor de pró-vitamina A, maior qualidade nutricional e produzindo fármacos, como insulina, hormônio de crescimento humano, anticoagulantes e vacinas. Existem também algumas plantas que podem ser utilizadas para tratamento de solo e água contaminados com elementos tóxicos, como alumínio e mercúrio.
Obviamente, esta tecnologia que expandiu muito as possibilidades de modificação das plantas, somente se justifica para características que não podem ser introduzidas pelos métodos de melhoramentos baseados em cruzamentos entre plantas sexualmente compatíveis e, quando as modificações introduzidas mostrarem-se seguras para o meio ambiente e para os consumidores. Para isso, todas as plantas transgênicas devem ser testadas exaustivamente com base no conhecimento científico disponível, até que se mostrem seguras. Somente após esses testes é que devem ser liberadas para o plantio e comercialização. Em se tratando de produtos agrícolas, estas liberações devem ser feitas com segurança incondicional. Não existe nenhum caso relatado, por fontes confiáveis, de problemas causados por plantas transgênicas, quer ao meio ambiente quer aos consumidores. Nos Estados Unidos, o algodão transgênico resistente a pragas, tem levado a uma redução de 21% na aplicação de inseticidas, preservando os insetos benéficos e reduzindo os riscos de exposição dos trabalhadores rurais aos agrotóxicos.
Recentemente, o governo brasileiro se pronunciou em favor da rotulagem dos alimentos transgênicos que contenham mais de 4% de ingredientes modificados geneticamente. Outros paises, como os Estados Unidos e Argentina não adotaram, até o momento, qualquer obrigação de rotulagem. Não há dúvida que o consumidor tem o direito de ser informado sobre o que consome; entretanto, qualquer percentagem estipulada não tem valor para a segurança alimentar, uma vez que quaisquer produtos, uma vez liberados, devem ser seguros, mesmo se consumidos diariamente em uma dieta normal. Portanto, não é a rotulagem o que irá dizer que tais produtos são seguros. Eles devem ser seguros antes de serem liberados, com ou sem rotulagem. No curto prazo, existirão muitos produtos com genes diferentes e outros contendo genes da própria planta com pequenas modificações. Este fato irá encarecer e dificultar muito a detecção destas modificações nos alimentos, de tal maneira que as leis de rotulagem podem se tornar inócuas.
Necessitamos disseminar tecnologia na atividade agrícola porque se queremos produzir mais para o mercado interno e para exportação, devemos fazê-lo nas áreas agricultáveis que já foram desmatadas, e parar de destruir o restante dos ambientes naturais: Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal, Amazônia, etc. O Brasil está no topo daqueles países que detêm tecnologia avançada de cultivo em regiões tropicais. Mas precisa viabilizar a chegada maciça desta tecnologia no lado de dentro das porteiras. Todas as tecnologias seguras devem ser bem-vindas, especialmente aqueles que reduzam o custo de produção, aumentem a produtividade e sejam ambientalmente mais saudáveis. Além disso, devem ser direcionadas no sentido de diminuir os custos de produção e aumentar o valor e a qualidade dos produtos.
Um caminho viável para uma agricultura ambientalmente mais saudável é o cultivo de plantas resistentes às pragas e menos dependentes de fertilizantes. Estas plantas podem ser obtidas com investimento maciço em programas de melhoramento que poderão utilizar todas as ferramentas disponíveis, entre elas a engenharia genética, e outras que certamente ainda serão inventadas. A utilização de plantas transgênicas resistentes a pragas e com maior aproveitamento dos fertilizantes certamente terá um importante papel nessa agricultura. Algumas dessas novas variedades de plantas – como aquelas contendo genes para produção de fármacos – somente poderão ser geradas por engenharia genética, já que os genes não poderiam ser transferidos para as plantas de outra forma.
O país dispõe de uma rigorosa lei de biossegurança, fruto de uma discussão democrática, que tramitou por cinco anos no Congresso Nacional, sendo aprovada em 1995. Desde então temos nos envolvidos em debates, que embora importantes, têm sido demasiadamente longos (mais de 6 anos), enquanto nossos competidores no mercado internacional adotam estas novas tecnologias, com áreas cada vez maiores. A discussão não pode ser generalizada, é possível que hajam tecnologias apropriadas para outros países que não serão adequadas para o Brasil. O oposto também certamente acontecerá. De qualquer forma já começam a surgir novos produtos, gerados em instituições e universidades públicas, que serão muito importantes para cultivos estratégicos para o país, como o da batata, feijão, mamão e laranja.
Uma das melhores previsões para o impacto da biotecnologia na agricultura está escrita no capitulo 16 da Agenda 21 da Rio-92, quando diz “em si mesma a biotecnologia não pode resolver todos os problemas fundamentais do meio ambiente e do desenvolvimento, por isso é preciso temperar as expectativas com realismo. Entretanto, sua contribuição promete ser significante para capacitar, por exemplo, o desenvolvimento de melhor atendimento da saúde, maior segurança alimentar por meio de práticas agrícolas sustentáveis, melhor abastecimento de água potável, maior eficiência nos processos de desenvolvimento industrial para transformação de matérias-primas, apoio para métodos sustentáveis de florestamento e reflorestamento, e a desintoxicação dos resíduos perigosos. A biotecnologia também oferece novas oportunidades de parcerias globais, especialmente entre países ricos em recursos biológicos (que incluem os recursos genéticos) mas carentes da capacitação e dos investimentos necessários para a aplicação desses recursos por meio da biotecnologia, e os países que desenvolveram a capacitação tecnológica necessária para transformar os recursos biológicos de modo que estes sirvam às necessidades do desenvolvimento sustentável”.