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Até onde o EUDR pode afetar o preço da terra no Brasil?


Giovanna Machado

O Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido como EUDR, está se consolidando como uma das transformações mais profundas no comércio global de commodities agrícolas nas últimas décadas. Embora sua aplicação tenha sido adiada para o final de 2026, o impacto dessa norma já é sentido. O que está em jogo não é apenas a capacidade de exportar para a Europa, mas algo mais estrutural: o próprio valor de mercado e a liquidez de milhares de propriedades rurais no Brasil.

Muitos produtores ainda veem o EUDR como uma questão distante, relacionada apenas a burocracia europeia. No entanto, a realidade que se desenha é mais complexa. O regulamento não cria uma proibição direta à venda de terras, mas estabelece um novo padrão de exigência que pode tornar certas propriedades muito menos atraentes para compradores exigentes, especialmente aqueles ligados a cadeias de suprimento globais que dependem do mercado europeu. Quando uma fazenda não consegue demonstrar de forma inequívoca que sua produção é livre de desmatamento pós-2020 e que atende a todos os critérios de legalidade, ela começa a carregar um risco regulatório que os investidores e grandes compradores preferem evitar.

Para compreender plenamente esse cenário, é preciso voltar um pouco no tempo. O EUDR foi aprovado em 2023 com o objetivo ambicioso de garantir que nenhum produto colocado no mercado europeu contribua para o desmatamento ou degradação florestal. As commodities incluídas são soja, café, cacau, carne bovina, óleo de palma, madeira e seus derivados. A data de corte é clara: 31 de dezembro de 2020. Qualquer área convertida de vegetação nativa após essa data torna o produto inelegível para o mercado europeu, independentemente de ter sido legal ou não segundo a legislação brasileira.

A postergação anunciada no final de 2025 trouxe um alívio temporário, mas também aumentou a pressão sobre o setor. Os operadores europeus ganharam tempo para se preparar, e os produtores brasileiros ganharam uma janela adicional para adaptação. No entanto, fontes próximas à Comissão Europeia indicam que o enforcement, quando começar, será rigoroso. As multas podem chegar a 4% do faturamento anual gerado na União Europeia, além da possibilidade de bloqueio imediato de cargas e até responsabilização penal em casos graves.

O risco de desvalorização de propriedades não é teórico. Ele já começa a se materializar no mercado. Fundos de investimento europeus e norte-americanos com forte viés ESG têm deixado claro que só consideram adquirir ou financiar fazendas com alto grau de conformidade ou com plano robusto de adequação ao EUDR. Uma propriedade que não consegue mapear com precisão suas áreas produtivas, apresentar histórico documental completo ou demonstrar legalidade plena da posse passa a ser vista como um ativo de maior risco. Isso naturalmente afeta o preço que o mercado está disposto a pagar.

Imagine uma fazenda de 2.500 hectares no norte de Mato Grosso ou no Matopiba. Há dez anos, ela foi expandida sobre áreas de Cerrado que, na época, eram consideradas de uso permitido. O produtor tem CAR aprovado, nota fiscal de compra da terra e licenças ambientais da época. No entanto, para atender ao EUDR, ele precisa provar, com geolocalização de alta precisão, que nenhuma parcela produtiva foi convertida após dezembro de 2020 e que toda a cadeia atende aos critérios de due diligence. Se houver qualquer lacuna - sobreposição de CAR, ausência de mapas históricos ou dúvida sobre a cadeia de custódia -, grandes compradores simplesmente descartam o imóvel ou oferecem um deságio significativo.

Esse fenômeno já é observado em transações reais. Consultorias especializadas em M&A rural relatam que, desde 2024, tem havido uma diferenciação clara de valuation entre propriedades “EUDR-ready” e aquelas com pendências. A diferença de preço pode variar entre 12% e 28%, dependendo da região, do tamanho da propriedade e do grau de incerteza documental. Em alguns casos extremos, propriedades com histórico mais sensível simplesmente não recebem propostas sérias de investidores institucionais.

O impacto não se limita aos grandes players. Pequenos e médios produtores, que representam a maior parte das propriedades rurais brasileiras, enfrentam desafios ainda maiores. O custo de adequação - que envolve mapeamento por drone ou satélite, regularização fundiária, contratação de consultorias ambientais e sistemas de rastreabilidade - pode ser proibitivo para muitos. Como consequência, há o risco de uma concentração ainda maior de terras nas mãos de grupos mais capitalizados, capazes de fazer os investimentos necessários.

A rastreabilidade exigida pelo EUDR é granular. Não basta dizer que a fazenda como um todo está regular. É preciso mapear cada talhão, cada lote, cada área de pastagem com coordenadas geográficas precisas. Para culturas anuais como soja e milho, a exigência é alta. Para pecuária, o desafio é ainda maior, pois é necessário rastrear todo o histórico do gado, incluindo fornecedores indiretos. Essa complexidade explica por que muitas cadeias ainda estão em fase de teste e por que o setor tem pressionado por simplificações.

Um dado importante vem da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. Em documento técnico de 2025, a CNA estimou que o custo médio de adequação ao EUDR para uma propriedade média varia entre R$ 85 mil e R$ 320 mil, dependendo do bioma e do nível atual de organização. Para propriedades menores de 500 hectares, o custo relativo por hectare torna-se ainda mais pesado, podendo comprometer a viabilidade econômica.

O futuro do valor da terra no Brasil está cada vez mais atrelado à capacidade de demonstrar conformidade com padrões internacionais de sustentabilidade. O EUDR é apenas o começo. Outros mercados e compradores tendem a adotar exigências semelhantes nos próximos anos. Quem se preparar agora estará posicionado para prosperar. Quem ignorar o movimento pode ver o valor de seu patrimônio rural ser impactado de forma duradoura.

O tema é complexo, técnico e cheio de nuances regionais. Cada propriedade tem sua história, seus desafios e suas oportunidades. O EUDR não precisa ser o fim da linha para nenhuma fazenda. Pode, na verdade, ser o começo de uma nova fase mais profissional, transparente e, potencialmente, mais valorizada do agronegócio brasileiro.

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