Velocidade Importa
Izner Hanna Garcia
Um cartucho de 9 mm pesa, em média, entre 11 e 12,5 gramas.
Pegue um cartucho de 9 mm nas mãos. Pense: o que aconteceria com estes 9 mm se você, simplesmente, jogasse (com suas mãos) estas 11 gramas contra uma pessoa? Praticamente nada, certo. Ok, então se você usar um estilingue, dependendo do modelo, pode ser que causasse um ferimento. Mas, se a estas 11 gramas de chumbo agregar a pólvora e todo mecanismo de uma pistola então, claro, o resultado pode ser muito diferente.
Veja, em todas as três situações hipotéticas estamos falando das mesmas 11 gramas de chumbo.
Mas o que muda em uma ou outra?
Velocidade.
O disparo de um cartucho 9 mm por uma pistola geralmente alcança entre 330 a 360 mts por segundo ou 1.188 a 1.296 km/h. Se fosse ‘atirado’ com as mãos a velocidade seria entre 20 a 25 metros por segundo ou 70 a 90 km/h.
Feita esta introdução para termos em mente que a velocidade é um conceito que importa devemos transpor esta analogia para o mundo da geopolítica.
Em geopolítica velocidade importa e muito.
Façamos um resumo da situação atual mais flamante: a Guerra no Irã. Aqui um parênteses: acho que seria errado dizer a Guerra do Irã ou dos EUA mas, sim, devemos tratar, para ser mais objetivos, que a Guerra é no Irã, sendo ou não de um ou outro adversário.
Em 28 de fevereiro os EUA iniciaram a Guerra após um ataque conjunto com Israel.
Se dermos uma googleada é fácil ver as declarações bombásticas dos EUA dizendo que em 4 semanas tudo estaria terminado e que o Irã ou se renderia ou sua civilização iria voltar à Idade das Pedras.
O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, foi morto logo no primeiro dia conjuntamente com uma gama de altas lideranças militares e políticas, além de familiares e, ao que tudo indica, também seu filho (que o sucedeu) foi gravemente ferido.
Bem, estamos já passados de medianos de agosto e qual a situação da Guerra? Houve rendição do Irã? A civilização daquele país voltou à idade das trevas? O governo iraniano, nos moldes que existia, foi deposto? O território iraniano foi conquistado ou sequer invadido? O Estreito de Ormuz (que agora todos sabemos o que é) foi controlado pelos EUA?
Nada. Nenhuma resposta acima pode ser positiva. Ao inverso todas negativas.
Deixando de lado especulações que não são, de fato, checáveis o fato é que o Irã resistiu e, não só, revidou. Atingiu bases norte americanas nos países do Golfo causando danos muito sérios à infraestrutura militar na região. Também já é fato que os EUA, inopinadamente, anunciaram que vão retirar todas suas tropas do Iraque até fim de setembro. O prazo estabelecido soa mais como uma fuga do que como uma retirada estratégica.
A derrota (já inegável) dos objetivos norte americanos na Guerra é flagrante e palpável. Mas não só a derrota em si na guerra mas as consequências e prejuízos aos interesses norte americanos na região tornams-se cada vez mais visíveis visto que não só não conseguiu alcançar seus objetivos militares contra o Irã mas também não foi capaz de proteger seus estados vassalos dos ataques do Irã o que, certamente, irá enfraquecer sua capacidade de tutelar esta região.
Aqui então voltamos à velocidade.
Os EUA perderem guerras não é novidade. Foi assim no Vietnã. Igualmente no Afeganistão. Entre aspas estas derrotas não foram tão prejudiciais.
O que torna, agora, a história um pouco diferente é a velocidade desta derrota.
Em 6 meses os EUA passaram de um poder superior e imbatível militarmente para a condição de um tigre de papel que não consegue submeter um país “atrasado” como Irã.
Este período curto (velocidade) não deu tempo que o fato pudesse não ser percebido, ser diluído e, claro, o mundo todo entendeu bem o que está acontecendo e o quão frágil se tornou a posição norte americana, mais ainda porque se trata do controle do Oriente Médio que controla o fluir de grande parte do petróleo (e todos correlatos) e que, enfim, fundeia e alicerça a hegemonia da moeda norte americana, o chamado sistema do petrodólar estabelecido em 1971 (15 de agosto) por Nixon quando retirou a conversibilidade do dólar x ouro porque, claro, à partir de então tiveram o fluxo de petróleo negociado em dólar.
Assim, à despeito da Guerra e suas manchetes midiáticas, a pergunta que fica agora é o quão rápido ou não este erro estratégico poderá refletir em mais um ‘prego’ no caixão da hegemonia do dólar norte americano como moeda denominadora mundial.
Certamente não haverá um crash. Mais que nada e até porque os demais países (como China por exemplo) não querem (e talvez nem possam) simplesmente assumir o papel de banco mundial com uma moeda hegemônica.
Não obstante, certamente o fato explicitado na guerra, nesta velocidade, não é um bom movimento para a dominância do dólar e, na medida que este exaurimento for lento tanto mais será definitivo.
Izner Hanna Garcia
Advogado, pós graduado FGV