No contexto das mudanças climáticas em curso, a seca é, por unanimidade entre os especialistas, o principal fator de risco à sojicultura brasileira. O documento”Tópicos Agronômicos sobre Enfrentamento da Seca na Soja — Embrapa Soja, Documentos 486” publicado em 2026 pela Embrapa Soja (bit.ly/4gw7gA8) reúne cinco capítulos que abordam, de ângulos complementares, as estratégias científicas e agronômicas desenvolvidas para minimizar os prejuízos que o déficit hídrico causa às lavouras — prejuízos que tendem a se intensificar nas próximas décadas em razão do aquecimento global.
O primeiro capítulo da publicação quantifica o impacto econômico da seca na produção dos cinco maiores estados sojicultores do Brasil — Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná e Rio Grande do Sul — ao longo de dez safras consecutivas (2014/15 a 2023/24). Os números são alarmantes pois, juntos, esses estados acumularam perdas de aproximadamente 112 milhões de toneladas de soja devido à seca, equivalentes a 76% de toda a produção brasileira de uma safra recorde e a 58 bilhões de dólares de receita que deixaram de chegar aos agricultores. Considerando a atual área cultivada, seria uma safra perdida a cada 10 anos.
O Rio Grande do Sul tem sido o estado mais castigado, e perdeu o equivalente a quase uma safra inteira a cada quatro anos, chegando a uma queda de 58% na produção em 2021/22. O Paraná acumulou prejuízos superiores a 15 bilhões de dólares no período. Mesmo o Mato Grosso, relativamente mais estável, perdeu 24 milhões de toneladas em dez safras.
ZARC-NM e sensoriamento remoto
O segundo capítulo apresenta o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), ferramenta desenvolvida e operada pela Embrapa, em parceria com o Ministério da Agricultura. O ZARC define, para cada município e cultivar, as épocas de semeadura com menor probabilidade de coincidir com períodos de seca grave. Para isso, utiliza séries históricas de trinta anos de dados climáticos e modelos matemáticos que calculam o equilíbrio entre a água disponível no solo e a demanda das plantas, em cada fase do ciclo.
A soja é especialmente vulnerável à falta de água durante a floração e o enchimento dos grãos — fases em que a necessidade hídrica pode superar 8 mm por dia. Além do zoneamento tradicional, a Embrapa está desenvolvendo o ZARC Níveis de Manejo, que considera as práticas adotadas pelo agricultor — como cobertura do solo, tempo sem revolvimento e diversidade de culturas — para refinar ainda mais as recomendações com base no manejo real de cada propriedade.
O terceiro capítulo trata do sensoriamento remoto como aliado no monitoramento da seca. Drones equipados com câmeras termais conseguem detectar diferenças de temperatura no dossel das plantas com precisão suficiente para identificar quais lavouras estão sofrendo estresse hídrico antes mesmo que o agricultor perceba visualmente. Plantas com falta de água fecham seus estômatos para economizar umidade, o que reduz a transpiração e eleva a temperatura foliar — sinal captado com clareza pelos sensores térmicos. Já imagens de satélites — como o Sentinel-2 — permitem mapear a produtividade esperada de lavouras comerciais com modelos de machine learning, abrindo caminho para alertas precoces em grande escala, a um custo muito inferior ao monitoramento campo a campo.
Biotecnologia e manejo
O quarto capítulo mergulha na biotecnologia aplicada ao melhoramento genético. Obter cultivares de soja genuinamente tolerantes à seca é um desafio científico de alta complexidade, pois essa característica é controlada por dezenas ou centenas de genes. Pesquisadores da Embrapa testaram linhagens geneticamente modificadas com genes de fatores de transcrição — moléculas que ativam múltiplos mecanismos protetores simultaneamente. Linhagens com os genes AtAREB1, AtDREB1A e AtNCED3 demonstraram maiores taxas de sobrevivência e melhor desempenho fisiológico sob déficit hídrico severo, em experimentos de casa de vegetação e campo. A ferramenta CRISPR de edição gênica abre uma perspectiva ainda mais promissora, pois permite modificar diretamente o DNA da soja sem inserir genes de outras espécies, o que pode resultar em cultivares tolerantes à seca com processos regulatórios mais ágeis e aceitos pelos mercados internacionais.
O quinto e último capítulo demonstra que o manejo conservacionista do solo é uma das estratégias mais eficazes e imediatamente disponíveis para reduzir as perdas por seca. O Sistema Plantio Direto (SPD), quando corretamente implantado com cobertura permanente de palha, rotação de culturas e sem revolvimento excessivo do solo, aumenta a capacidade de retenção hídrica do perfil e favorece o crescimento das raízes em profundidade — o que amplia o reservatório de água acessível às plantas nos momentos críticos. Experimentos de longa duração em Londrina (PR) mostraram que lavouras em SPD são significativamente mais produtivas e mais estáveis do que as cultivadas em preparo convencional em anos de déficit hídrico.
Soluções integradas
Em conjunto, os cinco capítulos mostram que enfrentar a seca na soja exige um portfólio amplo de soluções integradas — do satélite ao gene, do planejamento do calendário de plantio ao manejo do solo —, articulado por investimento contínuo em pesquisa e por políticas públicas que traduzam esse conhecimento em ferramentas acessíveis a todos os produtores.
O autor é engenheiro agrônomo, membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica.