Curuquere no algodão: equilíbrio entre biológico e químico
Curuquere é o nome dado a lagartas desfolhadoras que atacam o algodoeiro
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O curuquere é o nome dado a lagartas desfolhadoras que atacam o algodoeiro, com destaque para a Alabama argillacea e para espécies do gênero Spodoptera, como Spodoptera frugiperda e Spodoptera cosmioides. A praga pode causar intensa perda de área foliar e comprometer diretamente a produtividade da lavoura, o que torna o manejo integrado — combinando controle biológico e químico — uma estratégia essencial ao longo de toda a safra.
O ciclo dessas lagartas passa por quatro fases: ovo, lagarta, pupa e mariposa adulta. Em clima quente, esse ciclo pode se completar em poucas semanas, permitindo várias gerações da praga dentro de uma mesma safra. No período de cultivo típico, de novembro a setembro, existem quatro janelas de atenção. Entre novembro e janeiro, no estabelecimento da lavoura, pequenas populações podem surgir em reboleiras. Entre fevereiro e abril, no auge do desenvolvimento vegetativo e do florescimento, a alta oferta de folhas favorece a expansão da praga — o período mais crítico para monitoramento. De maio a julho, durante a formação e o enchimento das maçãs, a desfolha excessiva compromete a fotossíntese e a retenção de estruturas reprodutivas. Já entre agosto e setembro, na maturação e colheita, restos culturais e soqueiras podem servir de ponte para a praga sobreviver até a safra seguinte.
Os prejuízos do curuquere vão além da desfolha visível. A redução da área foliar compromete a fotossíntese e o enchimento das maçãs, aumenta o estresse das plantas — com maior queda de botões florais — e pode afetar indiretamente a qualidade da fibra. A isso se somam custos mais altos com pulverizações corretivas e o risco de resistência da praga quando há uso repetido de inseticidas com o mesmo modo de ação.
Um erro recorrente no campo é depender exclusivamente do controle químico, com aplicações frequentes e pouco seletivas. Essa prática reduz a população de inimigos naturais — vespas parasitoides, joaninhas, crisopídeos, percevejos predadores e aranhas — e cria condições favoráveis para novos surtos da praga. Some-se a isso o atraso no monitoramento: quando a desfolha intensa é percebida, a infestação já pode ter ultrapassado o nível de controle, exigindo medidas mais drásticas e elevando custo e risco de resistência.
O monitoramento sistemático é a base de um manejo eficiente. Em vez de seguir um calendário fixo de pulverizações, recomenda-se caminhar pela lavoura semanalmente — em zigue-zague ou por transectos, sem se limitar às bordaduras —, contar lagartas por planta ou por número definido de folhas e estimar o grau de desfolha, classificando-o em leve, moderada ou severa. Também é importante registrar a presença de inimigos naturais e, quando disponíveis, usar armadilhas com feromônio para monitorar mariposas e antecipar surtos. A decisão de intervir se baseia em níveis de ação, que consideram a relação custo-benefício, o estádio da cultura e a capacidade dos inimigos naturais de conter a praga — parâmetros que devem ser ajustados com apoio técnico à realidade de cada propriedade.
No controle biológico, três frentes se destacam. Os parasitoides — vespas que atacam ovos ou lagartas — reduzem o número de indivíduos que chegam aos estágios mais danosos, sendo favorecidos quando se evita o uso de inseticidas de amplo espectro em baixas infestações. Os predadores generalistas, como joaninhas, crisopídeos, percevejos predadores e aranhas, ajudam a conter o crescimento populacional ao se alimentarem de ovos e lagartas pequenas. Já os bioinseticidas, à base de microrganismos como o Bacillus thuringiensis (Bt), atuam por ingestão e são mais eficazes contra lagartas jovens, exigindo boa cobertura das folhas e aplicação no início da infestação. Longe de serem "venenos fracos", esses produtos têm modo de ação específico e, usados de forma técnica, podem reduzir significativamente a necessidade de inseticidas químicos de amplo espectro.
O controle químico segue importante em surtos populacionais ou estádios críticos da cultura, mas precisa ser usado de forma compatível com o biológico. Isso significa basear as aplicações em monitoramento e níveis de ação, priorizar produtos seletivos aos inimigos naturais, rotacionar modos de ação para reduzir o risco de resistência e evitar misturas sem respaldo técnico. A compatibilidade entre bioinseticidas e produtos químicos também precisa ser avaliada, testando pH e miscibilidade da calda quando houver indicação de mistura. Uma estratégia recomendada é reservar as aplicações químicas para momentos pontuais e, nos intervalos, priorizar bioinseticidas e a ação natural dos inimigos.
O manejo do curuquere também se conecta a outras decisões da safra. A destruição de soqueiras e restos culturais após a colheita reduz a sobrevivência da praga na entressafra, enquanto a rotação de culturas ajuda a quebrar seu ciclo. O manejo da adubação e da irrigação deve evitar excessos que tornem o dossel da planta muito denso e atrativo à praga, mantendo a sanidade da lavoura. Áreas de vegetação não cultivada nas bordas, quando viáveis, contribuem para manter inimigos naturais na paisagem agrícola.
Todo esse manejo deve seguir a legislação e as normas de segurança vigentes: uso de equipamentos de proteção individual, receituário agronômico assinado por profissional habilitado, descarte correto de embalagens conforme programas de logística reversa e cuidado para evitar deriva de produtos para áreas vizinhas, corpos d'água e áreas de preservação.
O controle do curuquere no algodão não depende de uma única ferramenta, mas da combinação equilibrada entre monitoramento constante, controle biológico, uso racional de inseticidas químicos e práticas agronômicas complementares. Essa integração é o caminho para reduzir perdas de produtividade, conter custos e diminuir o risco de resistência da praga ao longo das safras.