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Larva pão de galinha no trigo: o que fazer antes que a perda seja irreversível

Praga que age embaixo da terra, destrói sementes antes mesmo de elas emergirem


Foto: Divulgação

Uma praga que age embaixo da terra, destrói sementes antes mesmo de elas emergirem e só se revela quando a perda já é irreversível. A larva pão de galinha, conhecida cientificamente como Diloboderus abderus, é um dos principais inimigos silenciosos da implantação do trigo no Brasil — e ainda é subestimada por muitos produtores.

O que é a larva pão de galinha?

A larva pão de galinha é o estágio imaturo de um besouro da família Melolonthidae, a espécie Diloboderus abderus. O nome popular "coró-das-pastagens" vem do seu hábito: encontra nas pastagens perenes e de inverno o ambiente ideal para completar seu ciclo, alimentando-se de raízes de gramíneas. Segundo informações da Embrapa Trigo e da obra de referência Entomologia Agrícola (Gallo et al., 2002), populações desta praga se mantêm em altas densidades justamente onde há sucessão contínua de culturas com grande massa radicular — cenário cada vez mais comum nas lavouras do Sul e Centro-Oeste do Brasil.

As larvas têm aparência inconfundível: corpo grosso, arqueado em "C", coloração creme a esbranquiçada, cabeça marrom escura com mandíbulas bem desenvolvidas e três pares de pernas visíveis no tórax. O adulto, por sua vez, é um besouro robusto, de coloração escura a castanha, que realiza voos de acasalamento e deposita ovos em solo com baixa cobertura vegetal.

O ciclo que o produtor precisa conhecer

O ciclo de vida de Diloboderus abderus é longo — pode se estender por mais de um ano, dependendo de temperatura e umidade. Para o produtor de trigo, três momentos são críticos:

Como identificar o dano na lavoura 

O dano é subterrâneo, o que torna a detecção precoce um desafio. De acordo com Gassen (1999) e com orientações técnicas da Embrapa Soja, os sintomas típicos na lavoura de trigo são:

Sintomas na lavoura

- Falhas em trechos da linha de semeadura — "claros" irregulares, sem plantas
- Plântulas que emergem e, dias depois, murcham mesmo com solo úmido
- Plantas que se soltam facilmente ao puxar, sem sistema radicular funcional
- Ao escavar o solo nas falhas: semente destruída (embrião consumido) ou raízes completamente roídas
- Presença de larvas ativas nas proximidades do dano radicular

Atenção: esses sintomas podem ser confundidos com falhas de regulagem de semeadora, baixa qualidade de semente, doenças de plântulas ou encharcamento. A confirmação sempre depende da inspeção do solo e da presença das larvas associadas ao dano.

O ponto de virada: como o dano é subterrâneo, o produtor muitas vezes só percebe o problema quando as falhas já são visíveis — e a perda de plantas, irreversível. Em áreas muito afetadas, a única saída costuma ser o replantio, com novo consumo de sementes, combustível e horas de máquina.

Quais são os prejuízos?

Os impactos vão além da falha visual na linha. Segundo os documentos técnicos da Embrapa Trigo, os principais danos incluem:

Impacto econômico

- Redução de emergência: a larva consome o embrião antes da emergência — o produtor interpreta como "falha de germinação"
- Falhas na linha: má distribuição espacial favorece plantas daninhas e dificulta fechamento das entrelinhas
- Plantas fracas: raízes parcialmente danificadas reduzem perfilhamento e deixam a cultura mais suscetível a estresses hídricos
- Replantio: em manchas severas, gera custo adicional significativo — especialmente em anos de preços baixos ou insumos caros

O que fazer: monitoramento e manejo integrado
A boa notícia é que prejuízos graves são evitáveis — desde que o planejamento comece antes da semeadura. As orientações da Embrapa Trigo apontam três frentes principais:

1. Monitoramento pré-semeadura

Em áreas com histórico de pastagens ou registros de corós, abra pequenas trincheiras (blocos de 20 × 20 cm, até 15–20 cm de profundidade) em pontos distribuídos pela área. Conte e registre o tamanho das larvas — quanto maiores, maior a capacidade de consumo no curto prazo.

2. Manejo cultural

Rotação de culturas com leguminosas de cobertura reduz a oferta contínua de raízes preferidas pela praga. Evitar pastagens de gramíneas por muitos anos seguidos na mesma área diminui gradativamente a população de corós.

3. Controle químico — quando e como

Em sistemas com histórico comprovado de dano, o tratamento de sementes ou a aplicação de inseticida no sulco de semeadura pode ser uma ferramenta de proteção inicial. A decisão, porém, não deve ser tomada só pela presença do inseto: densidade de larvas, custo da intervenção e valor do trigo precisam entrar no cálculo. E o uso de inseticidas deve sempre seguir rótulo, bula e receituário agronômico — e ser orientado por engenheiro agrônomo.

Atenção ao risco de resistência: o uso repetitivo do mesmo grupo químico aumenta a pressão de seleção. Sempre que houver diferentes grupos disponíveis e registrados, a rotação de ingredientes ativos é recomendada, integrada a boas práticas culturais.

 

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