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Trigo além da colheita: cultura protege o solo e gera renda

Decisão de plantar trigo precisa fazer parte do planejamento anual da propriedade


Foto: Divulgação

Planejamento integrado com soja, milho e plantas de cobertura permite aproveitar melhor a área durante o inverno, reduzir riscos produtivos e distribuir as receitas ao longo do ano

O trigo deixou de ser visto apenas como uma cultura de inverno destinada à produção de grãos. Quando inserido de forma planejada na sucessão com soja, milho e espécies de cobertura, o cereal pode contribuir para a conservação do solo, o manejo de plantas daninhas, pragas e doenças, além de gerar uma nova fonte de receita durante a entressafra.

Em propriedades concentradas no cultivo de soja durante o verão, o período de outono e inverno representa uma oportunidade para manter as áreas produtivas. Deixar o solo descoberto nesses meses pode aumentar os riscos de erosão, perda de água, compactação superficial e avanço de plantas daninhas.

A entrada do trigo, combinada ou alternada com culturas como aveia, cevada, canola, centeio e nabo forrageiro, amplia o uso da terra ao longo do ano. O sistema também permite produzir grãos em duas safras, gerar palhada para o plantio direto e utilizar máquinas, mão de obra, armazéns e outras estruturas por um período maior. Outro efeito é a distribuição das entradas financeiras. Em vez de depender apenas da comercialização da safra de verão, o produtor passa a contar com uma segunda janela de colheita e pode avaliar estratégias como venda imediata, armazenagem ou contratos futuros.

Para aproveitar esses benefícios, a decisão de plantar trigo precisa fazer parte do planejamento anual da propriedade. O produtor deve considerar as condições do solo, o histórico da área, o clima regional, as janelas de semeadura e colheita, as exigências nutricionais das culturas e as perspectivas de mercado.

O primeiro passo é realizar um diagnóstico da área. A análise de solo deve avaliar fatores como acidez, matéria orgânica e disponibilidade de nutrientes. Também é necessário observar possíveis problemas de compactação, drenagem e erosão.

O histórico dos últimos três a cinco anos ajuda a identificar quais culturas passaram pela área, os níveis de produtividade e os principais problemas relacionados a plantas daninhas, pragas e doenças. Essas informações orientam a escolha da sequência mais adequada.

A definição das culturas de verão também interfere diretamente no encaixe do trigo. Em muitos sistemas, a soja funciona como cultura principal. O milho pode entrar como safra de verão em parte da propriedade ou, nas regiões onde houver condições, como segunda safra.

A partir desse calendário, o produtor precisa verificar se existe tempo suficiente para semear e colher o trigo sem comprometer a implantação da próxima safra de verão. O planejamento deve respeitar o zoneamento climático e considerar o ciclo da cultivar escolhida.

Trigo após a soja é o arranjo mais comum

A sucessão entre soja e trigo é uma das combinações mais utilizadas. Além do encaixe entre os calendários das duas culturas, o trigo pode aproveitar parte dos nutrientes residuais deixados no sistema.

Quando cultivado depois do milho, o cereal exige atenção maior. Como milho e trigo são gramíneas, a repetição dessas espécies pode favorecer determinados problemas sanitários. Nesses casos, o manejo da palhada, da fertilidade e das doenças precisa ser analisado com cuidado.

Depois da colheita do trigo, a soja costuma retornar à área. A quantidade e a qualidade da palhada produzida pelo cereal influenciam o estabelecimento da oleaginosa, a conservação da umidade e a proteção da superfície do solo.

O sistema radicular do trigo também ajuda a explorar nutrientes em diferentes camadas. Além disso, a cultura deixa uma quantidade importante de resíduos vegetais, favorecendo o plantio direto e contribuindo gradualmente para o aumento da matéria orgânica.

Com o passar dos anos, uma rotação bem planejada pode melhorar a agregação do solo, a infiltração de água e o aproveitamento de fósforo e potássio. Esses resultados, porém, são cumulativos e nem sempre aparecem após apenas uma safra.

Diversificação auxilia no manejo de plantas daninhas

A alternância de culturas com ciclos e características diferentes também pode reduzir a pressão de plantas daninhas adaptadas a sistemas pouco diversificados, como áreas mantidas continuamente com soja.

O cultivo de espécies no inverno permite utilizar estratégias distintas de manejo ao longo do ano. A rotação dos mecanismos de ação dos herbicidas, associada à cobertura do solo e ao controle antecipado das invasoras, pode auxiliar no enfrentamento de plantas resistentes.

A sucessão também contribui para interromper parcialmente ciclos de pragas e doenças ligados a uma única cultura. Para que isso ocorra, entretanto, é necessário evitar a repetição excessiva de gramíneas, como em sequências contínuas de milho, trigo e milho. O manejo deve considerar o sistema completo, e não apenas cada lavoura separadamente. A escolha das cultivares, a suscetibilidade a doenças e o histórico de problemas da área devem orientar o uso racional de Fungicidas e Inseticidas.

Uma das decisões do produtor é definir quanto da propriedade será destinado ao trigo comercial e quanto será reservado às plantas de cobertura.

Áreas com boa fertilidade, relevo mais suave e menor pressão de plantas daninhas podem receber uma proporção maior de trigo para produção de grãos. Já áreas degradadas, com baixa matéria orgânica ou histórico de erosão, podem exigir maior presença de espécies de cobertura.

Aveia, centeio e nabo forrageiro, por exemplo, podem ser utilizados para produzir palhada e colaborar com a recuperação física e biológica do solo. Em locais com elevada infestação de plantas daninhas, coberturas com maior produção de massa também podem ajudar a reduzir a emergência dessas espécies.

O equilíbrio entre trigo e plantas de cobertura deve levar em conta a necessidade de renda no curto prazo e a construção da capacidade produtiva do solo no médio e longo prazo.

Entre os arranjos possíveis está a sequência de soja no verão, trigo no inverno e retorno da soja na safra seguinte. Em outros anos, o trigo pode ser substituído por aveia ou nabo antes do cultivo de milho. Outra possibilidade é plantar milho no verão, trigo no inverno e soja no ciclo seguinte. A alternância evita a repetição contínua das mesmas famílias de plantas, diversifica os sistemas radiculares e melhora o aproveitamento dos fertilizantes aplicados ao longo das safras.

 

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