Tecnologia

Cisternas transformam vidas nas zonas rurais do Ceará

Hoje, a ASA contabiliza, pelo P1MC, mais de 600 mil cisternas construídas, com capacidade de 16 mil l
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"Em cada sala, um altar. Em cada quintal, uma cisterna". Parafraseando Padre Cícero, a região do Cariri, pelo menos na zona rural, assim como boa parte do Semiárido, ganhou um componente em sua paisagem de Caatinga: a cisterna.

Nos últimos 15 anos, o Programa Nacional de Apoio à Captação de Água de Chuva e outras Tecnologias Sociais (Programa Cisternas), financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), impulsionou o acesso à água para consumo humano e produção de alimentos, a partir de tecnologias sociais simples e de baixo custo. O principal público deste programa são as famílias de baixa renda, atingidas pela seca e falta regular de água.

Dentro dele, surgiu, posteriormente, o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), criado no ano de 2003, pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), organização que mobiliza cerca de 750 instituições. Hoje, a organização contabiliza, pelo P1MC, mais de 600 mil cisternas, com capacidade de 16 mil litros, construídas.

Já o Programa Uma Terra, Duas Águas (P1+2), implantou cerca de 96 mil cisternas das chamadas "segunda água", que captam até 52 mil litros das chuvas, e que são destinadas à produção de alimentos e criação de pequenos animais.

Ampliação

Já em 2011, surge o Programa Nacional de Universalização do Acesso e Uso da Água, a partir do Decreto Nº 7.535, gerido pela Ministério da Integração Nacional e executado em parceria com os governos estaduais. A medida procurou ampliar o acesso às cisternas de placa de concreto e polietileno, além de outras tecnologias sociais, para mais de 750 mil famílias.

Neste cenário, várias histórias de vida foram transformadas no Semiárido brasileiro. A região do Cariri cearense, conhecida pela sua geografia privilegiada. O sopé da Chapada do Araripe concentra nascentes e poços naturais que abastecem os municípios. Mas a realidade é diferente na zona rural. O acesso à água não é democratizado, de difícil captação e, nos períodos de seca, muitas comunidades dependem de carro-pipa.

 Mudança de vida

Na comunidade de Catolé, no município de Milagres, a chegada das cisternas mudou o modo de vida dos moradores. Segundo a agricultura Maria Agda Ferreira, a água da primeira cisterna, de 16 mil litros, instalada em 2006, já garantiu o consumo dela e de sua família, que, além de seu marido, possui três filhos e um neto. "Antes, a gente botava água na cabeça ou no jumento. Água que vem do céu é limpa, é boa", lembra.

Em 2014, sua família recebeu a cisterna de "segunda água", de 52 mil litros e, a partir dela, começou a produzir alimento e aumentou sua criação de animais. "A gente se sente como parte da renda da família. Antes, eu era só nos afazeres da casa. Com isso aí, a gente consegue, além de cuidar da casa, ajudar nas hortas, nas galinhas", explica.

Enquanto isso, na comunidade de Jiqui, na zona rural de Mauriti, a agricultura Maria Francineide Lima, 70, acredita que a cisterna deu outra perspectiva para sua produção.

"O período da seca, que nem é agora, as frutas antes morriam todas, porque não tinha onde a gente arrumar nossa água. Agora, depois dela, nosso pé de laranja já tirou dois sacos e já está colhendo outro. Quando vai acabando, a gente vai abastecendo com o carro-pipa", conta. No entanto, sua tecnologia de calçadão, de 52 mil litros, não encheu totalmente. A agricultora acredita que, na cisterna maior, a água tem mais facilidade de evaporar.

Coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), o Programa de Cisternas operado pelo Banco do Nordeste (BNB), por meio da ASA, foi reconhecido com o segundo lugar no Prêmio Internacional de Política para o Futuro 2017, da organização alemã World Future Council, entregue na China. O projeto é parte do "Água para Todos" e contemplou, além do Ceará, os estados da Bahia e Minas Gerais com 21 mil cisternas.

Junto com as tecnologias sociais, os programas fornecem equipamentos para criarem os "quintais produtivos", onde o agricultor dedica um espaço de seu terreno à criação de canteiros de frutas, legumes e verduras. A partir delas, alguns já conseguem colher uma quantidade capaz de comercializar, seja nas comunidades vizinhas ou nas feiras. Na comunidade de Genipapo, em Crato, Cicero da Cruz, 31, e seus pais foram beneficiados com o projeto. Hoje, está produzindo o coentro, alface, , salsinha, rúcula, cenoura, couve, cebolinha e mamão.

Enxurrada

No ano passado, a família de Cícero recebeu a cisterna de enxurrada, que capta a água da chuva que cai no chão. Nela, também cabem 52 mil litros. Apesar de já produzir antes da chegada da tecnologia social, hoje ele quer ampliar a produção e aumentar a renda. "O pensamento é de produzir mais mamão, até fiz algumas mudas aqui", espera o agricultor, que já vende na feira agroecológica local, além de entregar, toda quarta-feira, às suas clientes. Além das verduras e legumes, ele comercializa ovos, porcos e galinhas.

Já Manoel Daniel Palmeira, 47, também da comunidade do Genipapo, começou a produzir alface, cheiro-verde e macaxeira. Há cinco anos, ele largou o trabalho na indústria, em Fortaleza, para voltar à agricultura. Mas, por enquanto, só planta para o consumo. "Só plantava no inverno, feijão e milho", explica. No entanto, sua cisterna do tipo "calçadão", construída em agosto do ano passado, com capacidade para 52 litros, não encheu no inverno. Ele acredita que a chuva penetrou na placa de cimento, antes de ser captada.

Renda complementar

Na região do Cariri, a Associação Cristã de Base (ACB), organização sem fins lucrativos, criou quatro feiras agroecológicas que reúnem, semanalmente, agricultores que produzem sem o consumo de agrotóxicos ou qualquer outro fertilizante químico. A ideia surgiu para que os beneficiados dos programas de cisternas, pequenos produtores, tivessem uma renda complementar e a população da zona urbana tivessem acesso aos alimentos saudáveis. Hoje, as feiras funcionam em Crato, desde 2003, Milagres, Nova Olinda e Santana do Cariri, as três a partir de 2015.

Saiba mais

Feiras Agroecológicas na Região do Cariri

Crato

Toda sexta-feira, a partir das 5h da manhã
Local: Rua dos Cariris, 61 - Centro

Milagres

Todo sábado, a partir das 5h da manhã
Local: Travessa Coronel Gomes - Centro

Nova Olinda

Todo sábado, a partir das 5h da manhã.
Local: Rua Pedro Antônio - Centro

Santana do Cariri

Todo sábado, a partir das 5h da manhã.
Local: Rua Ulisses Coelho - Centro

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