O 17o Fórum Nacional da Soja ocorreu sob a idéia central da inviabilidade da produção agrícola no Brasil neste momento. Inviabilidade esta devido aos altos custos de produção, associada aos preços baixos dos produtos primários, particularmente os da soja. Isto limita sobremaneira a geração de renda dos produtores e impede a reprodução das atividades agrícolas, assim como a geração de novos investimentos. Neste momento, existe inclusive a incapacidade dos produtores em pagar as suas dívidas. Um dos principais motivos de tal realidade é encontrado no câmbio sobrevalorizado, o qual dura mais de um ano, tendo sido assunto inclusive no Fórum de 2005.
Em termos gerais, a primeira palestra do Fórum, proferida pelo Sr. Antônio Sartori, da Brasoja, enfatizou a mudança de tendência mundial no que tange ao aumento do mercado com poder aquisitivo nos próximos anos, o qual poderá crescer mais de 30%. Tal crescimento se dará, particularmente, junto aos países asiáticos tais como a China, Índia e Indonésia. Isto aumentará a demanda mundial por alimentos, acelerando a busca por produtos agrícolas no mundo.
Paralelamente, o mundo será obrigado a controlar melhor o uso da água e o aquecimento da terra, pois os riscos climatológicos estão aumentando. Isto leva a humanidade a ficar cada vez mais à mercê do imponderável.
Neste contexto, o grande desafio será alimentar o mundo em geral e os países em desenvolvimento em particular. Principalmente porque o consumo de carnes tende a crescer. Todavia, existem problemas. A gripe aviária é um dos maiores no momento, porém, não pode ser usada de forma sensacionalista, gerando mais desinformação do que reais informações aos consumidores.
Um outro problema que se apresenta é fazer frente aos subsídios agrícolas mundiais os quais podem ser vistos como uma ação competente da organização dos produtores rurais europeus e dos EUA para obterem apoio oficial. Enquanto isto, aqui no Brasil, realizamos muito barulho e conseguimos pouco resultado.
Ora, em muitos casos, tal situação provém da omissão do setor produtivo. Ou seja, precisamos ser mais participativos na reivindicação e defesa de nossos interesses.
Em termos específicos de mercado, Chicago está sob controle dos Fundos, os quais estão mantendo os preços relativamente elevados neste momento. Embora os fatores gerais sejam baixistas, existe uma questão que o mundo está dando pouca importância. Trata-se da redução na safra estimada da América do Sul. A Argentina não deverá passar de 37 milhões de toneladas e o Brasil poderá ficar em somente 54 milhões de toneladas, trazendo o volume total regional para algo ao redor de 100 milhões de toneladas e não em 106 milhões, ou até mais, como indicavam as projeções iniciais.
Ao mesmo tempo, a China continuará importando grãos pois não possui mais fronteira agrícola para expandir sua produção agrícola. Enquanto isto, o governo brasileiro e outros países do mundo estimulam a produção de biocombustível, usando o óleo vegetal como insumo. Isto deverá incrementar a demanda por oleaginosas em geral e a soja em particular. Neste aspecto, o Brasil pode ser um fornecedor privilegiado.
Ou seja, apesar das dificuldades conjunturais, o Brasil tem perspectivas para o futuro no médio e longo prazo. O que precisamos é agir com racionalidade, deixando de lado a emoção.
Já no curto prazo, o grande problema, conforme a moderadora da palestra, a jornalista Ana Amélia Lemos, é resolver o problema do endividamento do meio rural como um todo. Torna-se necessário definir com clareza que poder o setor primário tem para encaminhar as soluções e efetivamente exercê-lo.
Na seqüência, o painel intitulado a Nova Crise no Campo: um grito de alerta, reuniu representantes do setor produtivo do Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Na essência, conforme o Sr. Rui Prado, presidente da Aprosoja, os produtores do Mato Grosso possuem propriedades rurais modelos de produção para o mundo, porém, no momento de vender a produção (após a porteira da propriedade), os mesmos não conseguem remunerar o seu trabalho. Há enormes custos ligados à tributação, ao frete elevado, ao câmbio defasado, à logística insuficiente e inoperante. Como exemplo, foi citado que a tonelada de soja, para o porto de Paranaguá (PR), está custando US$ 100,00 em frete enquanto o produtor recebe, pelo produto, tão somente US$ 200,00/tonelada. Ou seja, somente o frete leva metade do valor do produto soja mato-grossense.
Neste sentido, os custos de produção estão sendo proibitivos aos produtores brasileiros em geral, e ao Mato Grosso em particular, Nos dois últimos anos os mesmos aumentaram US$ 264,91/hectare. O frete aumentou US$ 126,00/tonelada e a ferrugem cresceu US$ 79,00/hectare. Os custos de produção, tomando-se Primavera do Leste como referência, chegam a US$ 510,79/hectare, somente em custos variáveis. Assim, hoje, o ponto de equilíbrio seria uma produtividade de 69,4 sacos/hectare. Ora, os produtores estão obtendo uma média de 45 sacos/hectare. Se o dólar viesse pelo menos a R$ 3,00 já se poderia alcançar o ponto de equilíbrio necessário. Mas, infelizmente, estamos longe disto no momento.
Para encaminhar soluções a estes problemas, precisamos, no curto prazo, um fôlego financeiro, via PEP de emergência e tratamento especial para as dívidas, particularmente as privadas. Ao mesmo tempo, necessário seria uma prorrogação das dívidas, via uma nova securitização. Para as dívidas de investimento, necessário seria uma moratória de 120 dias, visando uma melhor renegociação das mesmas. Enfim, compensações tributárias devem ser construídas.
No médio prazo, o grande caminho será formar novamente renda. Ao mesmo tempo, o governo deveria considerar a ferrugem asiática como uma epidemia, criando alternativas econômicas públicas para combatê-la. Os produtos genéricos devem ser mais valorizados assim como os transgênicos deveriam ser aprovados pela maioria simples na CTNBio. Isto daria maior agilidade ao produtor e a sua recuperação econômica.
No longo prazo, precisamos urgentemente de um seguro agrícola eficiente, de melhorias consideráveis na logística brasileira, verticalização da produção e, para as regiões que ainda não o fizeram, um programa eficiente de diversificação de atividades.
Neste contexto, uma coisa é certa: não há como manter a competitividade e mesmo a sobrevivência do setor primário nacional diante de um real que se valorizou 39% entre janeiro/03 e fevereiro/06, conforme o Sr. Nelson Costa, representante da OCEPAR. O agravante disto é que não há perspectivas de mudança para 2006. Com isso, os preços médios da soja recuaram 35,4% no mesmo período, tomando-se por base os praticados no Paraná. Paralelamente, o Brasil perdeu 18 milhões de toneladas de grãos devido a problemas climáticos.
Diante deste quadro, a rentabilidade dos produtores paranaenses caiu 111% nos últimos 10 anos (1994/95 a 2004/05). Na atual safra o custo operacional chega a R$ 27,00/saco, o custo total alcança a R$ 34,00/saco, enquanto o preço recebido pelos produtores chega a apenas R$ 24,00/saco. Já os valores de troca ficam nas seguintes relações: fertilizantes exigem hoje 40% a mais de sacos de soja; para comprar mil litros de óleo diesel, é preciso hoje 61% a mais de sacos do produto; para comprar um trator com 100 CV, necessitou-se 4.946 sacos de soja em 2005, contra 2.962 sacos de soja em 2003.
Assim, mesmo diante das alternativas apontadas, como o biocombustível, as indústrias moageiras deverão se encontrar frente a um problema importante. O que se fará com o farelo resultante do esmagamento, este feito para se produzir o óleo vegetal. Afinal, no caso da soja, 78% do grão moído gera farelo e somente 18,5% geram óleo. Ao mesmo tempo, a indústria enfrenta o problema de tributação, além de outros problemas que impedem a sua permanência no mercado.
Estamos caminhando para exportar cada vez mais o grão de soja, inclusive abastecendo a Argentina, para que nossos vizinhos o triturem e exportem o farelo e o óleo, tirando nossos mercados externos junto a estes subprodutos da soja.
É unanimidade, portanto, que se faça uma recomposição urgente do endividamento dos produtores de soja, alongando em 10 anos o prazo de pagamento, com a primeira parcela sendo paga em 2007.
Neste contexto, o agronegócio brasileiro em geral e o da soja, em particular, enfrenta uma contradição. Tecnicamente está muito bem, porém, politicamente vai muito mal, conforme declarações do Sr. Caio Viana, diretor da CCGL e dos terminais portuários Termasa/Tergrasa. Não podemos continuar assim, acumulando dívidas e perdendo espaço na exportação, através de um câmbio sobrevalorizado em favor do real, acrescenta ele.
Enfim, ficou o alerta para o fato de que os juros agrícolas estarem muito elevados no momento. 8,75% para custeio agrícola e 14% para o Moderfrota, quando a inflação projetada neste momento, para todo o ano de 2006, é de somente 4,5%. Sem falar que os insumos agrícolas não tiveram seus preços reduzidos na proporção do recuo do dólar, colocando os produtores rurais ainda em maiores dificuldades.
O Fórum se encerrou com a palestra do professor da FGV, Mauro de Rezende Lopes. O mesmo enfatizou que a crise está presente e é uma realidade. Neste contexto, o agronegócio brasileiro, pela primeira vez nos últimos 10 anos, realiza ajustes duros, pisando no freio. Afinal, mesmo que sejamos a quarta potência do agronegócio mundial, ainda temos muitas limitações que precisam ser urgentemente resolvidas. Porém, inteligentemente resolvidas. Ou seja, não podemos olhar apenas para o curto prazo. Precisamos adotar uma visão de futuro, visando minimizar os efeitos da crise.
Ora, para termos sucesso precisamos construir uma pauta de reivindicações objetiva, respeitando as demandas passadas. O erro será construir uma pauta difusa. Ao mesmo tempo, o setor deve levar ao governo a realidade em que vive, não deixando que assessores oficiais pintem um quadro que não existe hoje no meio rural brasileiro e na sojicultura em particular.
Na prática, a crise é técnica, porém, a solução da mesma é política. Neste sentido, os produtores devem organizar suas reivindicações, com a liderança do Rio Grande do Sul, Paraná e Centro-Oeste. Muitas questões estão pendentes, ainda das antigas reivindicações, e devem ser contempladas, tais como: importação de insumos do Mercosul, mais baratos; subvenção de 1/3 do prêmio do seguro rural; criação e regulamentação de um fundo de catástrofe.
Precisamos montar, portanto, um plano estratégico, e avaliar melhor nosso capital político. Em outras palavras, cita o professor Mauro Lopes, precisamos ter maior cacife político. Para tanto, necessitamos de interlocutores habilitados, capacitados. Afinal, o agronegócio carrega o Brasil nas costas e isto os brasileiros devem saber, a Nação deve respeitar melhor este importante setor da economia brasileira.