O ano de 2010 chega ao fim e, ao contrário do que se possa imaginar, a situação geral não permite euforias. No front internacional a crise econômico-financeira, iniciada no já distante 2007, continua e não dá mostras de arrefecer. As finanças públicas estão esgotadas e o mercado ainda não tem forças para retomar o empuxe adequado da economia. Além disso, muitos países entraram em crise fiscal, caso da Grécia, Irlanda, Espanha e outros, enquanto outros tantos desenvolvidos ainda estão longe de gerar um crescimento suficiente para gerar empregos. A arma do juro baixo (os EUA acabam de reconduzir sua taxa básica para níveis entre 0% e 0,25% ao ano) não gera o efeito esperado, e a economia não retoma. Com isso, os mercados mundiais continuam dependendo dos países emergentes, especialmente da China. Ora, esse país asiático, após um forte aporte estatal de recursos, enfrenta um aquecimento acima de suas possibilidades, gerando uma inflação elevada e preocupante. O governo chinês iniciou, assim, um processo de desaquecimento da economia, com fortes possibilidades de aumento do juro interno. Enquanto não o faz, sua moeda, o yuan, permanece com uma desvalorização competitiva, que mina o restante do comércio mundial. A tal ponto que as propostas de aumento no protecionismo comercial mundial voltaram a ser defendidas, inclusive na Europa, fato que viria a fechar ainda mais os mercados e agravar o contexto de crise mundial. Enfim, o dólar continua muito desvalorizado!
2010 termina exigindo atenção (II)
E o Brasil nesse quadro? No curto prazo, aproveitando-se da estabilização econômica gerada a partir de 1994 e reforçada em 1999, através do tripé “meta inflacionária, superávit primário e câmbio flutuante”, o país conseguiu superar parcialmente a crise. Todavia, aqui também foi o dinheiro público à profusão, acompanhado de subsídios de toda ordem e forte endividamento, que deu condições de o país viver um 2010 “fora do comum”, onde o crescimento do PIB bate em 8% ao ano. Na falta do mercado externo, pela crise e pelo Real sobrevalorizado, se apostou no mercado interno, graças a forte demanda reprimida. O outro lado desta moeda começa a aparecer agora. Assim como na China, o aquecimento da economia elevou muito a inflação, fato que obriga o governo a frear o consumo via redução na disponibilidade do crédito. Esse aperto na economia, um tanto tarde, deverá continuar em 2011, porém, não irá evitar o estouro da bolha da inadimplência em muitos setores, a começar pelo consumo familiar. Os juros irão subir nos próximos meses, o crescimento do PIB será bem menor, o emprego irá diminuir, e as contas públicas irão exigir do novo governo uma nova postura, sob pena de a sociedade ter que amargar aumento muito maior nos impostos. Em outras palavras, o ano de 2010 chega ao fim exigindo muita atenção dos brasileiros, pois o mundo exterior ainda não retomará sua condição de consumo, o mercado interno começa a ter freada sua capacidade de gastos, o endividamento é grande, e o Estado não se articula na direção das reformas estruturais.