Por ocasião de mais uma Expodireto/Cotrijal, em Não-Me-Toque (RS), realizou-se o 22º Fórum Nacional da Soja. O tema que perpassou as três palestras foi a atual discussão sobre o Código Florestal brasileiro e o substitutivo apresentado pelo Deputado Federal Aldo Rebelo. Por sua vez, a palestra referente ao mercado da soja, proferida por André Pessoa, diretor da Agroconsult, trouxe um ponto de vista importante que deve ser analisado com mais profundidade. É o que faremos nesse espaço. Em primeiro lugar, houve a confirmação de que estamos diante de um ano muito bom, que concilia excelente produtividade com um mercado muito positivo. Em segundo lugar, falou-se que o mercado está enfrentando um choque de demanda importante, que não é compensado pela produção. Os EUA, por exemplo, já terminaram a safra 2010/11, com 31 milhões de hectares semeados e colheita de 90,6 milhões de toneladas de soja. Mesmo diante de tais números, o resultado foi um tanto frustrante para os estadunidenses. Na verdade, os EUA esperavam mais em produtividade. Isso porque, diante de tais números, pelo quarto ano consecutivo os estoques finais no país ficam em patamares críticos.
Nesse contexto, os EUA temem que lhes faltem estoques na medida em que a relação estoque/consumo é de apenas 4%. Portanto, não há espaço para quebra da nova safra, que logo mais será plantada. Uma quebra de safra nessas condições poderia elevar as cotações em Chicago para valores ainda nunca vistos. Por sua vez, a Argentina, apesar de ter começado a nova safra em situação ruim, se recuperou com o retorno das chuvas de janeiro e fevereiro. Assim, a safra tende a ser menor, porém, longe de ser ruim. No entanto, é preciso ainda que chova nos próximos 30 dias. Quanto à produção brasileira, espera-se, no Rio Grande do Sul, 45 sacos/hectare de média com as lavouras de soja. No Brasil, a produtividade média deverá ficar em 50 sacos/hectare pela primeira vez na história do país. Assim, o volume final nacional ainda continua sendo projetado em 72 milhões de toneladas, apesar de problemas climáticos localizados, caso do excesso de chuva no Mato Grosso do Sul e falta de chuvas, em março, em parte do Rio Grande do Sul. Mesmo assim, os mercados continuam nervosos. Esta é a realidade da oferta no momento!
22º Fórum Nacional da Soja (II)
Em terceiro lugar, o que estaria acontecendo hoje no mercado mundial é um choque de demanda. Enquanto choques de oferta seriam superados em um a dois anos, superar um choque de demanda é muito mais difícil, podendo seu ciclo demorar anos. Essa perspectiva estaria indicando a continuidade de preços elevados para a soja no mercado internacional. Liga-se a isso o aumento da renda nos países emergentes, fato que eleva o consumo da proteína animal, a qual encontra, na combinação de milho com farelo de soja, o melhor componente para gerá-la.
Por sua vez, a China aponta para um consumo de farelo em crescimento de 15% ao ano, propiciado pela melhoria na tecnologia de produção de suínos. E o consumo chinês deverá continuar firme por muitos anos. O consumo de soja na China atinge a 68,9 milhões de toneladas de soja, sendo 57,9 milhões importados no momento. Com isso, a demanda deverá diminuir somente se o preço subir demais. Essa é uma questão crucial a partir de agora. Em quarto lugar, é preciso igualmente ficarmos atentos à safra futura dos EUA, a qual começa a ser semeada em abril. Quanto de área a soja irá receber? Ora, a resposta é que a maior área será destinada ao produto que der mais dinheiro ao produtor.
Hoje, a relação soja/milho é de 2,16 em favor do milho. Ou seja, a área de milho deverá aumentar mais em detrimento da soja, fato que deverá manter os preços elevados da oleaginosa. Todavia, os EUA poderão muito bem manter a área de soja, retirando espaço dos programas de conservação. Assim, ironicamente, enquanto o Brasil, através do Código Florestal, vê a possibilidade de reduzir sua área de plantio, os EUA, para suprir seus estoques e demanda, avançam sobre áreas de conservação. Diante dessa realidade, especialmente nos EUA, o mercado de clima, nesse ano, que se inicia com o plantio naquele país, será particularmente importante.
22º Fórum Nacional da Soja (III)
Enfim, nesse contexto, a rentabilidade dos produtores brasileiros irá melhorar. E isso se evidencia para a próxima safra. Tanto é verdade que a relação de troca insumo/produto passa de 23 para 18 sacos/hectare no país, enquanto no Rio Grande do Sul a mesma cai de 22 para 16 sacos. Assim, as margens poderão ser as melhores da história na próxima colheita, em se confirmando o atual quadro de mercado. Em nosso entender, pelo lado da oferta x demanda a análise esta ajustada.
O que faltou incluir na mesma é o fato de que grande parte do aumento que Chicago vem recebendo nesses últimos tempos se deve à presença do capital especulativo que, em busca do dinheiro fácil, relativiza a questão de oferta e demanda. Tanto é verdade que, no mesmo dia em que se desenrolava o Fórum, Chicago bateu em limite de baixa devido aos problemas que atingem o Japão. Ora, mesmo sendo um importador de soja, o mesmo está longe de ter forte influência na relação de oferta e demanda mundial da oleaginosa.
O que fez, na verdade, o mercado cair foi a saída intempestiva do capital especulativo diante do risco que a economia japonesa passou a representar, o qual se espalha um pouco em todo o mundo. Principalmente agora que os problemas atingem as usinas atômicas. Por sua vez, vale lembrar que nas últimas semanas o mundo vem trabalhando contra os fortes aumentos dos preços das commodities em função da pressão inflacionária que isso está provocando, com seu potencial de desestabilização econômica geral. E, quando isso acontece, mais dia menos dia o mercado cede, pois a especulação busca outras paragens.