O presidente do Banco Central do Brasil, Sr. Henrique Meirelles, tem razão nos alertas que faz. A economia brasileira, por estar mais preparada para enfrentar crises externas, tem maiores condições de sair da atual crise internacional mais cedo.
Além disso, o fato de termos conseguido manter uma estabilidade econômica e política razoável ajuda a entender porque voltamos a receber uma quantidade importante de dólares, o que está inflando o valor das ações na Bovespa e derrubando rapidamente a cotação do dólar no mercado interno.
Mas ainda é preciso muita cautela, pois a crise se faz presente. Diante disso, a questão é interpretar com maior profundidade os fatos para que não sejamos surpreendidos. Em primeiro lugar, os capitais especulativos, mais uma vez eles, saíram em busca de países emergentes que oferecessem condições de ganho fácil, a partir da crise existente.
Como o Brasil continua a oferecer uma combinação ideal de juros altos e estabilidade econômica e política aceitável, tem sido um dos primeiros países a novamente atrair o dinheiro especulativo. Em segundo lugar, esta entrada de capitais levou a Bovespa a ultrapassar os 54.000 pontos na semana.
Todavia, esse comportamento, ao ser comparado com as principais Bolsas do mundo, é atípico. Ou seja, somente a Bovespa vem tendo seu índice em tal crescimento. Tanto é verdade que no acumulado de 2009, até o dia 02/06 inclusive, a nossa
Bolsa registra um ganho de 43,8%, contra 13,3% no México; 17% na Nasdaq de Nova York; 10,6% no Japão; 8,5% na Espanha; 6,9% na Alemanha; 3,5% na Inglaterra; e apenas 1,2% em Wall Street (Nova York).
A tendência, nesse contexto, é de assistirmos a uma forte correção para baixo, passado o momento de euforia especulativa. Algo que pode ser proporcional ao ocorrido em 2008.
A Bovespa e o Banco Central (II)
Bastariam algumas estatísticas mundiais negativas que confirmem a permanência da crise. Nesse sentido, muitos bancos ainda devem apresentar balanços ruins, assim como as economias em geral continuam a indicar PIBs negativos e um ano de forte recessão.
O próprio Banco Central brasileiro alerta para o fato de que no mercado acionário brasileiro há um excesso de euforia e é preciso manter os pés no chão (sic).
Afinal, a economia brasileira desenha um comportamento negativo para o PIB; a indústria nacional encontra dificuldades para superar a crise (a indústria gaúcha, por exemplo, acaba de anunciar que sua atividade teve a pior queda no período de janeiro a abril de 2009, nos últimos 17 anos, sendo que o setor industrial voltado à exportação caiu 22,6% no mesmo período e o desemprego continua importante e mesmo subindo em alguns setores, tendo sido suprimidas 32.000 vagas nesse primeiro quadrimestre do ano).
Em termos globais, não se pode esquecer igualmente que o mundo, até o momento, já perdeu US$ 28 trilhões desde outubro passado, enquanto o comércio mundial caiu 11% e o PIB médio mundial está projetado em menos 1,3% para 2009.
Assim, não há nenhuma justificativa concreta, com base na economia real, que autorize a imaginar que o movimento altista da Bovespa (assim como a forte valorização do Real em contrapartida) tenha sustentação por longo ou mesmo médio prazo.
Salvo se assistirmos a um retorno do processo especulativo exagerado, como foi o caso dos anos anteriores ao estouro da crise, o qual é causador justamente de distúrbios econômicos. Isso é importante porque se espera para 2010 uma recuperação mais sólida da economia.
Ora, todo e qualquer soluço especulativo, agora, pode atrasar ou impedir que acompanhemos os demais países na redecolagem.