Para quem ainda tinha dúvidas quanto a extensão da atual crise financeira, a recessão confirmada no Japão, após a Alemanha, a Espanha, a Itália e outros países da Europa, sem falar nos EUA, esclarece o problema. O mundo está sim entrando em recessão econômica com duração relativamente longa. Ou seja, se confirma a necessidade de um a dois anos para que a crise financeira, e seus impactos concretos na economia real, comecem a ser superados. Para o Brasil o quadro igualmente não é animador, pois os efeitos da crise se fazem sentir, como era anunciado, já neste final de ano. Com o agravante de que muitos economistas indicarem que nosso país deve entrar igualmente em recessão a partir de março de 2009. Em isso ocorrendo, o crescimento do PIB nacional, para o próximo ano, tende a ficar próximo de zero, ou seja, distante dos 2,5% a 3% esperados, os quais já são bastante reduzidos em relação à expectativa de 4,5% para 2008 e os 5,3% de 2007. Tal movimento implicará em redução de empregos, preços menores para os produtores e industriais, menor geração de renda e um consumo apertado. Em outras palavras, a crise é séria, é de longa duração e traz conseqüências para todos os países, indistintamente. Paralelamente, fica evidente que os recursos públicos aplicados pelos diferentes países servem para “apagar o incêndio”, evitando um efeito ainda maior na economia real, porém, estão longe de propiciar uma retomada econômica. Os Estados, na prática, juntamente com FMI e Banco Mundial, não possuem recursos suficientes para sustentar uma recuperação de longo prazo da economia. Assim, dentro do espírito da nova governança mundial, iniciada em meados dos anos de 1980, será preciso o retorno do capital privado ao mercado, agora no contexto produtivo, para relançar a economia pós-crise.
Parte II
Nesse contexto, as decisões do G20 (grupo das principais economias do mundo, dentre elas alguns emergentes como o Brasil), tomadas nos dias 14 e 15 de novembro em Washington, são reveladoras. O Grupo considerou que no imediato as ações tomadas são estas e não há muito mais o que fazer, senão esperar que as mesmas façam efeito, cumprindo o seu ciclo (início, queda, fundo do poço – que se estaria alcançando -, estabilização no fundo, retomada, volta ao normal). Em segundo lugar, as principais medidas anunciadas visam o futuro. E este futuro confirma nossos sentimentos anteriores. Haverá um fortalecimento da economia de mercado, com maior regulação do setor financeiro, porém, sem radicalismos inibidores do sistema. Os bancos e financeiras serão mais vigiados em seus balanços e na tomada de riscos no mercado bursátil, por exemplo. Em segundo lugar, para quem puder, haverá maior redução de juros (decisão difícil para o Brasil caso não consiga debelar, por outros meios, a atual pressão inflacionária) e, particularmente, redução das barreiras comerciais. Ou seja, é com liberalismo econômico que se sai de crises e não com protecionismo. Nesse sentido, a OMC já está convocando seus membros para uma ampla reunião, em dezembro, visando finalmente a conclusão da Rodada de Doha. Espera-se que tal conclusão não seja apenas de fachada. Sobretudo porque o novo presidente eleito dos EUA indica ações protecionistas para recuperar sua economia interna e salvar empresas em estado falimentar, caso da GM. Enfim, o mundo deverá reforçar o papel das entidades supranacionais já existentes, caso do FMI e do Banco Mundial, expandindo os seus orçamentos, além de manter, por enquanto, a intervenção pública na economia real.
Prof. Dr. Argemiro Luís Brum