Os produtores rurais brasileiros vêm, nestes dois últimos anos, amargando uma difícil situação econômico-financeira. Constantes frustrações de safra, problemas fitossanitários e sanitários (ferrugem asiática, aftosa, ameaça de gripe aviária etc...), preços baixíssimos em relação a elevados custos de produção, política cambial negativa ao setor primário exportador, elevado endividamento e falta de políticas agrícolas de longo prazo, consistentes, são alguns dos elementos centrais do problema. No Noroeste gaúcho (compreendido aqui numa faixa entre São Borja e Lagoa Vermelha, passando pelo Alto Jacuí, Planalto Médio e Missões), a crise é ainda mais grave. Isto porque o problema se acumula a partir de uma seca, em 2005, que destruiu quase 80% da safra de soja, principal receita regional, boa parte do milho, com prejuízos na produção de leite e outras atividades. Naquele ano, a região aqui considerada somou R$ 3,8 bilhões de prejuízos devido unicamente à seca. A perda de receita no Valor Bruto Agregado teria somado R$ 4,7 bilhões. Neste ano de 2006, a recuperação não ocorreu. Primeiro, porque a safra de verão não foi homogênea, havendo produtividades na soja variando entre 10 e 60 sacos/hectare. Segundo, e principalmente, porque os preços de mercado despencaram, puxados por um câmbio sobrevalorizado. Assim, apenas com a soja, considerando as perdas de cerca de um milhão de toneladas no Estado, devido ao clima, e os R$ 14,00/saco que o produtor está deixando de ganhar devido ao câmbio (levando-se em consideração o valor médio histórico de US$ 11,06/saco), a perda regional soma R$ 1,9 bilhão. Desta forma, nestes dois últimos anos a perda de receitas na região, por alto, já soma R$ 5,7 bilhões.
Auto-suficiência em Petróleo (?)
Uma reportagem esclarecedora, nas suas entrelinhas, foi publicada neste último final de semana pelo jornal Zero Hora. O Brasil estaria alcançando a auto-suficiência em petróleo, pela primeira vez na história, neste mês de abril de 2006. Algumas considerações fundamentais precisam ser feitas a partir desta constatação. Em primeiro lugar, esta auto-suficiência só existe porque nosso crescimento econômico é muito baixo (2,3% em 2005). Qualquer aumento no crescimento econômico exigirá maior consumo de energia e, portanto, mais petróleo. Segundo, a vantagem da auto-suficiência, mesmo que aparente, é a facilidade no controle da inflação, menor dependência da pressão internacional, melhor absorção dos choques mundiais nos preços do petróleo. Terceiro, mesmo assim, isto não significa que os preços dos combustíveis nacionais irão baixar (apesar de a Petrobrás extrair um barril de petróleo ao custo de US$ 15,00, enquanto o mercado mundial, hoje, está acima de US$ 70,00). Ora, um consumo desenfreado de petróleo no país significa a redução das reservas que, para serem repostas e manterem o padrão de auto-suficiência, precisarão de uma manutenção no nível de exploração. Esta só está sendo possível em águas profundas do Oceano Atlântico, fato que exige pesados investimentos. Estes, somente serão possíveis se os preços dos derivados forem vendidos aos níveis do mercado internacional. Quarto, nas condições atuais, o Brasil está sustentando preços artificiais dos combustíveis, de maneira geral, pois o repasse do aumento internacional do petróleo não ocorreu. Temos aí um grave problema de continuidade na exploração petrolífera nacional. Enfim, manter a auto-suficiência não será fácil e exigirá muita competência administrativa.