No momento em que o Brasil assiste a mais uma queda de braço entre o presidente do Banco Central e o ministro da Fazenda sobre a evolução da taxa básica de juros (o mercado começa a apostar que o ministro Mantega, por questões eleitorais, irá se sobrepor a Henrique Meirelles e, usando a momentânea freada no ímpeto inflacionário nacional, segurará a Selic em 11% neste ano e não mais em 12,25% projetados inicialmente), e os EUA, preocupados com a contínua paralisia de sua economia, acaba de anunciar a manutenção de seus juros anuais básicos entre 0% e 0,25%, o mundo se pergunta: quanto tempo será necessário para a economia mundial se recuperar dos efeitos da crise? Pois se a crise parece ter sido superada em alguns países, caso do Brasil, um grande número de outros países, especialmente os mais ricos, está longe de vencê-la. Nos EUA, por exemplo, estudos da Brookings Institution indicam que o país precisará de 11 anos e meio para recuperar o nível de emprego anterior à crise global caso consiga criar 208.000 empregos por mês. Mesmo que criasse 321.000 empregos mensais, seriam ainda necessários cinco anos para voltar ao pré-crise. Ora, em junho de 2010 aquele país ainda perdeu 221.000 postos de trabalho. E tal realidade atinge a União Europeia, Japão e outras nações. E estamos falando de países que são grandes importadores de produtos brasileiros, fato que indica que nosso futuro econômico ainda dependerá muito do mercado nacional, já bastante endividado. Além disso, as falhas por trás da crise global não desapareceram, conforme Martin Wolf do Financial Times. O mundo está mais arriscado atualmente e pode ser incapaz de evitar novos tremores econômicos. A desigualdade na distribuição de renda continua e a solução pelo Estado se esgota, inclusive em países como o Brasil.
A Crise é Mais Embaixo (II)
O crédito para financiar os mercados continua dependente do Estado, num momento em que estes se mostram extremamente frágeis, com dívidas públicas beirando o insustentável. Enquanto isso, os setores privados, em boa parte, já estão com altas dívidas. Nestas condições, que demanda irá sustentar o consumo mundial e garantir um retorno ao crescimento global? Hoje está difícil de indicar! E não se iludam com a China. O país asiático, apesar do seu crescimento se manter elevado, vem lutando para não deixar sua economia estourar. A tal ponto que seu mercado começa a se fechar. Sim, lentamente a China, pelo sentimento de que a crise ronda cada vez mais perto sua economia, começa a obstaculizar a entrada e mesmo a manutenção das empresas estrangeiras. A ideia, na velha lógica protecionista que nada agrega no longo prazo, é privilegiar os grupos empresariais locais em detrimento dos estrangeiros. Ou seja, foi-se o tempo em que “o tapete vermelho” era rapidamente desenrolado para os investidores externos. Recente estudo realizado com 500 empresas estrangeiras presentes na China indicou que apenas 34% das mesmas estão confiantes quanto a poderem tirar algum benefício concreto do atual crescimento econômico chinês. Hoje, tais empresas enfrentariam as piores condições de trabalho dos últimos 25 anos naquele país asiático. Já no Brasil, segundo a Unctad, as remessas de lucros e dividendos das empresas transnacionais aqui instaladas deverão somar entre US$ 32 e US$ 35 bilhões neste ano, enquanto a entrada de capital produtivo ficará em apenas US$ 30 bilhões. E isso num momento em que nossa balança comercial deve registrar um recuo de quase 50% em seu saldo. Assim, muita calma com o entusiasmo oficial. A realidade da economia mundial ainda não nos oferece garantias de uma saída sustentável da atual crise.