Segundo o economista Bradford Delong, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley (cf. ZH, 14/02/2010, p.7 do Caderno Dinheiro) o dilema do emprego está na seguinte equação: ou aumenta-se a demanda por bens e serviços, e espera-se o aumento do emprego na medida em que as pessoas passam a consumir mais, gerando uma demanda de produção maior, ou deixa-se de lado a preocupação com a produção de bens e serviços e tenta-se gerar empregos por meio de contratação de pessoal diretamente pelos governos.
A primeira alternativa é melhor, porém, não tem efeito imediato. Diante de uma crise que foi duas vezes maior do que o previsto no final de 2008, a maioria dos países acabou adotando medidas de apoio à primeira alternativa (sem abandonar a segunda), porém, insuficientes para gerar os empregos necessários. Por isso, países como os pertencentes à União Europeia, os EUA, Japão e outros acabaram 2009 com taxas de desemprego elevadas.
Ao mesmo tempo, procuraram aliviar o problema via Estado, fazendo com que este empregasse mais fato que eleva o custo público e a dívida, gerando o problema potencial de calote. Algo que está muito presente junto ao grupo conhecido agora como PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), geradores de novos sustos econômicos nesse início de 2010.
Mas também está muito presente nos EUA, onde a dívida pública total bateu em US$ 13 trilhões no final do ano passado.
A crise e o emprego em 2010 (II)
No Brasil, não está sendo diferente, embora em proporções menores (ainda!). Ou seja, reduzindo impostos em produtos de consumo, o governo induziu o consumidor a comprar e o empresariado a empregar, ao mesmo tempo em que o governo contrata pessoas, mesmo sem necessidade em muitos casos (o aumento dos concursos públicos no país é uma prova disso).
Isso reduziu o desemprego formal no final de 2009. Todavia, na esfera pública aumentamos o problema dos gastos em pessoal. O número de servidores públicos no poder executivo, entre 2003 e 2009, cresceu 19,2%. Enquanto isso, a dívida pública, que vinha recuando desde 2003, quando passou de 52,4% do PIB, naquele ano, para 36,7% em 2008, teria dado um salto para 43,3% em 2009 (a projeção mais pessimista é de 44,2%).
Assim, a retomada econômica até aqui conquistada no mundo foi realizada de forma “tecnicamente assistida”, ou seja, com recursos públicos injetados pelos Estados. Como será o movimento quando a muleta do recurso público for retirada (algo que começa a ocorrer)? Se a geração de empregos não retomar até meados de 2010 no mundo, a retomada econômica poderá morrer, e o mundo voltará a cair em estado de crise.
Por outro lado, o aumento dos juros vem aí, para também pagar o aumento da dívida pública.
A economia a mercê da política
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em seu artigo do início de fevereiro (ZH, 07/02/2010, p.15), afirma com razão que, a respeito da construção da estabilidade econômica no país, chegamos ao estágio econômico positivo em que o país se encontra graças as medidas adotadas nos seus dois mandatos, com os respectivos ajustes no passar dos anos (caso da flexibilização cambial em janeiro de 1999).
Por sua vez, o governo Lula tem o mérito, nessa área, de ter entendido (apesar da pressão política de muitos de seus afoitos seguidores), a importância em manter as medidas adotadas. O somatório destas duas ações, em quatro mandatos ou 16 anos, nos permite hoje enfrentar bem a crise global que se instalou desde meados de 2007.
Na prática, o atual governo preservou o regime de câmbio flutuante; o controle da inflação através da meta inflacionária, dando autonomia ao Banco Central de aí atuar usando a taxa de juros (Selic) como um dos seus instrumentos básicos; e conservou a responsabilidade fiscal via a manutenção dos superávits primários. Todavia, a importância da crise mundial, a proximidade das eleições presidenciais e o afã em eleger uma candidata construída e sem presença política importante, mais alguma dose de populismo “a la Chávez”, talvez influenciado pela mediocridade de seus assessores internacionais, levou o presidente Lula a avalizar o aumento dos gastos com a máquina estatal, inchando a mesma; a realizar aumentos salariais demasiados junto a boa parte dos funcionários públicos e mesmo parcialmente na pensão aos aposentados.
Ou seja, também não conseguiu (ou não quis) realizar as reformas do Estado, a começar pela administrativa, piorando ainda mais a situação. Nesse início de 2010 constata-se aquilo que já era evidente e preocupante nos últimos anos: o gasto governamental cresce numa velocidade inquietante, colocando em risco a estabilidade econômica e deixando um enorme problema para o presidente que será eleito.
O endividamento do brasileiro
Outro aspecto alertado ainda no ano passado, a partir das medidas de socorro dadas à economia nacional, acaba de se cristalizar nesse início de novo ano.
O endividamento da pessoa física no país cresceu 19,7% em 2009, somando um total nacional de R$ 637,39 bilhões (cf. Banco Central). Isso corresponde a 46% da renda anual da população. Mais ainda, tal endividamento passa de 20% do PIB brasileiro. A questão agora é: esta realidade somente é sustentável se a economia crescer, porém, para crescer precisará de investimentos, os quais necessitam de poupança.
De onde sairá tal poupança? Ora, o governo está retirando o crédito público, embora o crédito privado não venha aparecendo a contento. Ao mesmo tempo, os juros tendem a subir e a entrada de investimentos externos diretos pode ser menor do que o esperado, pois a crise mundial continua presente.
Em resumo: o risco de inadimplência, com consequente freio no consumo nacional, não pode ser desprezado para 2010 e, particularmente, para 2011.