A crise avança no interior do governo Lula, atingindo paulatinamente a quase todos os setores. Sem entrar no mérito das causas, graves por sinal, estamos diante de um problema que compromete a estabilidade política e pode atingir a economia. Neste sentido, as novas acusações envolvendo o atual Ministro da Fazenda, Sr. Antônio Palocci, preocupam, pois sua blindagem está sendo retirada. O problema não está especificamente pela sua saída ou não do Ministério, fato que o mercado até já absorveu. Afinal, a economia brasileira conseguiu um certo nível de estabilidade que, em princípio, absorveria tais situações. A questão central está no debate de fundo que se instala entre os defensores de um menor controle do déficit público, via diminuição do superávit primário e mesmo do controle inflacionário, visando mais investimentos em infra-estrutura e um maior fôlego no giro de dinheiro na economia, contra aqueles que desejam manter a atual linha restritiva na economia, buscando, através dos ajustes monetários, manter a estabilidade via cumprimento da meta inflacionária. Este confronto, que se dá inclusive no interior do governo, na medida em que a Ministra Dilma Roussef e o Vice-Presidente da República se posicionam ao lado do primeiro grupo, pode sim desestabilizar em parte a economia nacional. É certo que o Brasil precisa de maiores recursos na infra-estrutura nacional, menos arrocho monetário, menores juros etc. Porém, também é certo que tais movimentos não podem ser feitos abruptamente. E muito menos com interesses eleitoreiros específicos, na velha linha do populismo por resultados. Neste sentido, caso Palocci saia do Ministério, a escolha de seu substituto deverá indicar o caminho que a economia brasileira tomará, com os seus riscos.
A Crise e o Ministério da Fazenda (II)
A aproximação das eleições de 2006 e a desestruturação parcial do atual governo, compromete seu futuro político, inclusive em termos do Partido dos Trabalhadores, fato que leva alguns mais afoitos e casuísticos a defenderem uma menor rigidez no controle econômico e monetário do país. Ora, isto poderá criar apenas uma bolha momentânea de crescimento, que favoreceria o atual governo nas futuras eleições, se a população se deixar iludir, com o risco de perdermos parcialmente a estabilização, aumentando a inflação. A conta, a Nação toda pagará logo em seguida. Particularmente, penso que o melhor caminho não é este. Hoje o Brasil alcançou maturidade econômica suficiente, inclusive aos olhos internacionais, para solucionar seus problemas econômicos sem políticas populistas que venham a comprometer a estabilidade. Se o atual governo pensar desta forma, colocará no lugar de Palocci, caso ele venha a sair, um técnico do tipo Murilo Portugal. Em caso contrário, poderemos ter um político, do tipo Aloísio Mercadante. Pelo sim ou pelo não, não me parece que o governo seja tão cego, apesar da crise em que se colocou, de não perceber que não há mais espaço para imediatismos na economia. O exemplo da Argentina, onde a inflação começa a disparar, criando forte preocupação, a ponto dos especialistas argentinos contatados afirmarem que ninguém sabe o que será de sua economia no segundo semestre de 2006, deve servir de lição. Seria um erro crasso partirmos para este caminho após anos de árduo trabalho para nos organizarmos economicamente. Dito isto, após este episódio nacional, qualquer que seja o Ministro da Fazenda, é certo que se tentará afrouxar um pouco o garrote econômico, o que é justo e necessário. Mas isto deve ser feito sem a perda da estabilidade.