A CRISE E O POPULISMO (I)
Como alertamos em diversas oportunidades nesse espaço, a economia não perdoa ações populistas. Especialmente em épocas de crise aguda como a que o mundo vive atualmente. Assim, países que, por infortúnio, têm governos populistas, caso da Argentina, Bolívia e Venezuela, por exemplo, estão em situação calamitosa.
E a conta, como sempre, recai sobre a população. No caso da Venezuela, que sustenta toda a sua política sobre a renda do petróleo, a nova realidade é duríssima. Um país cujo petróleo representa a metade da renda do Estado e 93% de suas exportações, não poderia deixar de sentir a forte queda nos preços internacionais do ouro negro.
Como sabemos, após o período especulativo, quando em julho de 2008 o barril de petróleo chegou próximo a US$ 150,00, os preços desta commodity recuaram fortemente, ficando hoje ao redor de US$ 50,00/barril e tendo mesmo se aproximado, meses atrás, dos US$ 30,00.
Diante disso, o governo venezuelano ajusta o seu orçamento, com um corte de 6,7% nas despesas públicas; aumenta impostos (a TVA-taxa de valor agregado passa de 9% para 12%); o crescimento da economia está agora projetado entre 1% e 2% oficialmente; cogita-se inclusive de um aumento no preço da gasolina (hoje em apenas dois centavos de dólar o litro) e assim por diante.
No que diz respeito ao orçamento, o mesmo foi constituído, para esse ano, com base em um barril de petróleo a US$ 60,00 em média. Diante dos atuais preços, o novo orçamento trabalha sobre a média de US$ 40,00.
O problema é que o governo venezuelano sempre desvalorizou o preço do petróleo para efeitos de orçamento, visando gerar uma renda “extra” para financiar ações “discretas”, como apoiar governos vizinhos, desde que rezem pela sua cartilha. Ora, diante da nova realidade, a renda petrolífera cairá 64%.
A CRISE E O POPULISMO (II)
Paralelamente, fala-se em desvalorizar o bolívar (moeda venezuelana), visando gerar mais renda na exportação. O governo nega, porém, no mercado paralelo o dólar já é negociado três vezes acima da cotação oficial, que é de 2,15 bolívares por dólar.
Além disso, mesmo com o aumento na TVA, a soma arrecadada será insuficiente para equilibrar as contas públicas. Assim, ou o governo corta gastos, a começar pelo apoio aos países vizinhos, ou penaliza a sociedade local, ou gera um rombo em suas contas.
A tendência é aprofundar o poço, triplicando o endividamento interno, o qual passaria a 34 bilhões de bolívares. Por sua vez, a empresa pública Petróleos de Venezuela (PDVSA), que financia de fato todo o populismo chavista, terminou 2008 com uma dívida de US$ 15 bilhões, comprometendo os investimentos na extração de óleo pesado descobertos na região do Orenoco.
Assim, a PDVSA está tentando emprestar dinheiro do Japão e da China. Isso que a Venezuela é o quinto maior exportador de petróleo do mundo e o petróleo esteve em seu maior preço histórico em 2008. Ou seja, o populismo local está liquidando também as empresas públicas e o país como um todo. Paralelamente, a inflação local não para de subir (em 2008 a mesma fechou em 31% oficialmente).
Assim, mesmo devendo aumentar em 20%, o salário mínimo local terá novas perdas em seu poder de compra. Pior: diante de tamanha inflação, o corte real nas despesas públicas será superior a 30%, o que obrigará uma redução nos programas sociais.
Enfim, as medidas anunciadas irão aumentar o desemprego, hoje oficialmente em 7,4%, embora o país conte com um crescimento constante da economia informal, que representa hoje 57,8% dos empregos declarados.
Ou seja, má gestão é igual a crise prolongada. Num país, sobra especialmente para os mais pobres.