Na história mundial, a liderança exercida por determinados países vem se alterando conforme o controle das inovações tecnológicas, o poder bélico, o poder econômico e os efeitos das diferentes crises. Dos gregos, 4.000 anos antes de Cristo, até os EUA a partir de 1918 (término da Primeira Guerra Mundial), passando pelos romanos, Espanha, Portugal, e a Inglaterra, o mundo assistiu a diferentes nações que ocuparam um lugar de destaque no seu comando. Nesse século XXI o debate se instala sobre quem irá substituir os EUA nesta liderança. O processo se acentuou particularmente a partir da abertura comercial, em meados dos anos de 1980, levando os países a consolidarem blocos econômicos em busca de maior presença regional e mundial, se cristalizando neste momento, com a crise econômico-financeira mundial que se instalou desde meados de 2007. Por enquanto, não se trata ainda de assistirmos a uma substituição pura e simples do poder estadunidense. Todavia, parece ser consenso de que os EUA, nos próximos 25 anos, estarão menos presentes na cena internacional. Seu peso na política externa mundial será menos determinante. A ascensão do G20, onde os países emergentes assumem um lugar mais destacado, é um forte indício deste movimento. E a razão principal do enfraquecimento estadunidense não está exatamente na evolução da China ou no poderio da União Europeia. A razão se encontra na falta de recursos que atinge os EUA para poder continuarem imperando sobre o mundo.
A crise muda a liderança mundial (II)
Ou seja, os EUA não possuem mais os meios econômicos para continuar a política externa que colocaram em prática na segunda metade do século passado. Para o economista norte-americano Mandelbaum (cf. Le Monde), estamos diante do fim da superpotência norte-americana. Como os EUA poderão manter sua liderança mundial com a limitação de recursos que a crise o coloca? O alto custo do Estado, e a estratégia de transferi-lo para o resto do mundo, está se esgotando. Chegou o momento dos governos locais voltarem-se para o interior do país, reformando o Estado e reduzindo os recursos destinados a influenciar o mundo externo. Dentre os motivos, está a dívida interna do país (apenas o juro desta dívida, de hoje a 2030, representará um montante superior ao destinado à defesa); os programas de previdência social, que irão explodir em pouco tempo, pois as pessoas prolongam sua existência, vivendo mais tempo à custa do Estado; os custos para aumentar o controle mundial, a começar pela ampliação das fronteiras da OTAN para além do necessário após o fim da Guerra Fria; e a ocupação do Iraque a partir de 2003. Esse conjunto de gastos inviabilizou o Estado norte-americano, custando-lhe a liderança mundial futura. Assim como Gorbatchev foi o homem (ou tentou ser) da transição da URSS para uma economia de mercado, Barack Obama estaria sendo o presidente da transição nos EUA. O futuro indicando menor presença mundial deste país, para alguns isso parece positivo, para outros o vazio de liderança levará o mundo a ser mais desordenado e perigoso.