Nesta semana a reacomodação dos mercados internacionais, particularmente na área financeira, provocou novos e fortes distúrbios na economia real. A quebra de mais um banco nos EUA, com a possibilidade de outros seguirem o mesmo caminho, derrubou as bolsas de valores a níveis nunca vistos desde os atentados do 11/09/2001. Os reflexos no Brasil são diretos igualmente, porém, administráveis. Ou seja, o Brasil não conseguirá passar incólume pela crise mundial, mesmo porque nossa economia está integrada ao sistema internacional globalizado. Muitos impactos, inclusive, já começam a ser sentidos, via queda no valor das ações negociadas na Bovespa; Real se desvalorizando; preços dos produtos agrícolas negociados em bolsa, caso da soja, por exemplo, recuando; juros aumentando; menor liquidez no mercado etc. Todavia, vale lembrar o porquê de, nesses últimos tempos, conseguirmos administrar tamanha crise. Em primeiro lugar, porque o país teve a inteligência de colocar em ação um plano de controle da inflação, embrião da estabilização econômica, em 1994. O Plano Real, que veio para ficar, iniciou um processo de reversão histórica em nossa economia e agora dá os seus frutos. Em segundo lugar, o governo da época, mesmo que pressionado pelo mercado, passou a adotar um sistema de câmbio flutuante em janeiro de 1999, saindo da armadilha de ter que defender a moeda artificialmente.
A CRISE MUNDIAL E O BRASIL (II)
Esta guinada no Plano Real nos permitiu sair da âncora cambial para uma âncora sustentada por um tripé decisivo: superávit primário, câmbio flutuante e metas inflacionárias. Em terceiro lugar, o governo Lula, mesmo se colocando como oposição, ao assumir o país percebeu a importância da estabilidade econômica e manteve o rumo da economia indicado pelo governo precedente. Não só o fez como procurou ajustá-lo ainda mais! A ponto de sabiamente aproveitar-se de um dólar fraco para aumentar as reservas internacionais do país, hoje ao redor de US$ 200 bilhões. Por outro lado, a estabilidade política foi mantida igualmente no país, com a vantagem de os novos governantes não terem cedido a arroubos populistas, pelo menos no essencial. Este conjunto de fatores, associado a outros tantos aqui não mencionados, permite hoje enfrentarmos bem a crise mundial que aí está. Todavia, temos importantes fragilidades! Seria ainda muito melhor se tivéssemos realizado o ajuste do Estado, através das reformas necessárias. Se tivéssemos eliminado a burocracia exagerada e a corrupção no setor público. Se tivéssemos, a partir daí, investido mais em infra-estrutura no país, na educação e na saúde da população brasileira. Esses são os desafios urgentes que precisamos enfrentar rapidamente, qualquer que seja o governo escolhido pela Nação.
SOJA CONVENCIONAL EM FALTA
Na esteira do avanço da soja transgênica, começa a faltar a chamada soja convencional. Mesmo havendo um nicho comprador, a oferta diminui. Isso porque, como se imaginava, o mercado internacional não paga um diferencial suficientemente atrativo para levar a soja convencional a ser mais interessante do que a transgênica, aos olhos dos produtores rurais. Muitas empresas que apostaram no produto convencional estão abandonando seus projetos, caso da Cotrimaio (cf. Gazeta Mercantil do 10/09/08). Hoje, praticamente 100% da área gaúcha de soja é transgênica. O custo de transporte para buscar o grão convencional, em alguns casos a distâncias de mais de 1.000 quilômetros, tem inviabilizado projetos nacionais em favor do produto convencional. Nessas condições, o prêmio entre 5% a 8% recebido pelo produto convencional se torna insuficiente. Ou seja, continuamos na mesma situação de 12 anos atrás: ou o mercado internacional, que deseja o produto convencional, paga um diferencial compensador ou ficará cada vez mais sem o produto. A ciência e a lógica de mercado, como se esperava, estão definindo o processo.
BOLÍVIA: UMA CRISE ANUNCIADA
Quando o governo Morales, ao assumir, decidiu seguir a cartilha populista de Hugo Chávez, nacionalizando as indústrias de hidrocarbonetos, principal riqueza do país, há alguns anos atrás, falamos que, embora legítima para um governo democraticamente eleito, a ação era economicamente suicida. Num mundo globalizado, cada vez mais interdependente, que trabalha para abrir os mercados e viabilizar a economia real, e enfrentar os excessos da economia virtual, um dos países mais pobres do planeta achar que pode retroceder para sistemas econômicos planificados era, no mínimo, temerário. Hoje, a crise interna no país confirma que realmente as ações ditas “socialistas” de Morales foram um “tiro no pé”. Agora, a América do Sul inteira está sendo chamada para “apagar o incêndio” e o povo boliviano pagando a conta, pois os reflexos estouram em todos. Ações radicais, um dia ou outro, sempre cobram o seu preço na economia, com reflexos em todos os setores da vida social de qualquer país! E o processo pode não terminar aí. Logo mais a “bola da vez” tende a ser a Venezuela mesmo, e outros países que dela dependem (veja a Argentina), na medida em que o preço do petróleo continuar baixando no mercado mundial.
REDUÇÃO DA POBREZA MUNDIAL (?)
O último relatório anual do Banco Mundial indica que entre 1981 e 2005 a pobreza mundial recuou de 52% para 26% da população mundial. Seriam 500 milhões de pessoas que deixaram a condição de pobreza. Todavia, o número absoluto de pobres no mundo (ganham menos de um dólar por dia), segundo o estudo, ainda atinge a 1,4 bilhões de pessoas. E o aumento dos preços dos alimentos nesse último ano, movido à especulação, em nada ajudou a melhorar esse quadro.