A crise mundial, que está sendo considerada como a pior dos últimos 60 anos, teve novos desdobramentos nesta semana. O pacote de US$ 700 bilhões do governo dos EUA, visando irrigar a economia, estava finalmente sendo aprovado, porém, com novas e importantes regras buscando um maior controle do capital financeiro. Mesmo assim, sozinho o mesmo não é suficiente para resolver o problema. Será preciso mais ações, inclusive entre os bancos centrais do mundo desenvolvido. Isso dito, a crise vem deixando rastros importantes e o Brasil, como alertávamos, já vem sofrendo as conseqüências. O crédito diminui, o custo do mesmo aumenta significativamente, a economia tende a diminuir de ritmo e, no médio prazo, empresas poderão fechar e desempregar pessoas. O governo brasileiro procura reagir liberando linhas de crédito adicionais, ação que exige pelo menos três observações. Em primeiro lugar, é importante que se mantenha a liquidez na economia, procurando melhorar a disponibilidade de crédito, caso contrário a economia real pára. Todavia, e em segundo lugar, por enquanto a ação do governo brasileiro se baseia apenas no dinheiro público, através do BNDES e outras instituições públicas. Isso é insuficiente e pode causar problemas de liquidez interna nessas instituições e/ou levar o país a emitir moeda acima do normal, gerando inflação. Em terceiro lugar, o governo deverá ter muito cuidado quanto ao volume do crédito a ser liberado, evitando o populismo eleitoral e natalino, sob pena de comprometer a estabilidade da economia. Isso porque estaríamos injetando dinheiro próprio na economia, tentando manter um crescimento, no momento em que o mundo puxa o freio de mão e busca reordenar o sistema econômico-financeiro, mesmo que isso custe um pouco de crescimento do PIB. Nesses dois últimos casos, estaríamos repetindo o erro que fizemos nos anos de 1970, quando da crise do petróleo, cuja herança foi a hiperinflação e a enorme dívida externa. Logo agora que conseguimos controlar, e bem, estes dois problemas.
INVESTIMENTOS EXTERNOS
Segundo o World Investment Report (WIR), o Brasil alcançou a quarta posição junto aos países emergentes, quanto à captação de investimentos externos diretos, em 2007. Estes investimentos são capitais produtivos procedentes do exterior que geram renda, emprego, impostos e crescimento ao país. No mundo, o total destes investimentos chegou a US$ 1,83 trilhão no ano passado, sendo que o Brasil recebeu US$ 34,6 bilhões. Ou seja, o volume brasileiro corresponde apenas a 1,9% do total mundial. Deveríamos atrair muito mais, porém, nossa estrutura burocrática, com um Estado pesado e ineficiente, a alta corrupção e compadrio, impedem que os investidores internacionais se interessem mais pelo país. Para 2008 nossa expectativa é de recebermos US$ 38 bilhões com este tipo de investimento. Todavia, diante da crise mundial, tal expectativa está comprometida, com o agravante que tal comprometimento deve se estender para 2009 e, talvez, 2010.
PREÇOS AGRÍCOLAS DESPENCAM
Na esteira da crise financeira mundial, outro segmento da economia real fortemente atingido é o das commodities agrícolas, negociadas em Bolsa. É o caso da soja, do trigo, do milho, do farelo e óleo de soja negociados na Bolsa de Cereais de Chicago. Neste 1º de outubro de 2008, considerando o primeiro mês cotado, a soja bateu em US$ 10,53/bushel, contra US$ 16,58/bushel quando de seu auge em 03 de julho passado. Ou seja, em menos de três meses o recuo da oleaginosa foi de 36,5%. Já o trigo atingiu agora US$ 6,69/bushel, contra US$ 8,72 três meses antes. Uma perda de 23,3% no período. O milho passou de US$ 7,46 antes, para US$ 4,84/bushel agora. Um recuo de 35,1%! O farelo de soja já está cotado a US$ 280,80/tonelada curta em Chicago, tendo perdido 37,7% no período. Por fim, o óleo de soja caiu para 44,20 centavos de dólar por libra-peso, perdendo 34,8% em três meses. E a correção de preços deve continuar! Nesse contexto, os preços da soja no Brasil só não caíram mais porque o câmbio melhorou, havendo uma desvalorização do Real, por conta da crise mundial, ao redor de 25% no período.
ARRECADAÇÃO DE IMPOSTOS AUMENTA
Apesar da crise mundial, a economia brasileira se manteve aquecida em 2008, particularmente no primeiro semestre. Com isso, o governo federal conseguiu manter o ritmo de aumento na arrecadação de impostos. Nos oito primeiros meses do ano a mesma atingiu a R$ 443,56 bilhões, ou seja, um aumento real (já descontada a inflação do período) de 10,3%. A coisa está tão boa para o lado do governo que o mesmo já admite reduzir algumas alíquotas de imposto. Duas observações a respeito dessa realidade. Em primeiro lugar, é uma pena que esse dinheiro praticamente não retorna à sociedade, pois grande parte é usada para manter a máquina pública inchada e ineficiente. Em segundo lugar, a arrecadação de agosto registrou uma variação real de 3,58% sobre o mês anterior. O percentual é o menor de todo o ano, fato que pode estar indicando que a crise mundial já atinge o setor produtivo e a receita da União, confirmando que 2009 será difícil.
BALANÇA COMERCIAL NEGATIVA EM 2009 (?)
Diante do câmbio sobrevalorizado, pelo menos até agosto, o saldo projetado da balança comercial, para 2008, apontava para US$ 23 bilhões. Ou seja, a metade do obtido no ano anterior. Se a desvalorização do Real, puxada pela crise mundial, não se consolidar em R$ 1,90, o que será provável na medida em que a tendência, para o final do ano, é que, em se debelando a crise, o câmbio passe novamente ao redor de R$ 1,60-R$ 1,70, existe o forte risco de nossa balança comercial registrar um saldo próximo a zero em 2009, senão negativo. Será um desastre para as contas públicas, pois tal comportamento deverá agravar o déficit da conta corrente, que neste ano de 2008 voltou a aparecer.