Todo ajuste econômico acaba gerando espaços de concentração de mercado. Ou seja, os setores que desaparecem são absorvidos pelos que, mais preparados, sobrevivem ao processo. Por outro lado, muitas ações de investimento na economia real, como fusões e novos projetos produtivos, sofrem reduções e mesmo paralisações. No primeiro caso, encontramos nesse momento, dentre os diversos exemplos, a ação de importantes investidores no sentido de comprar os bancos médios, mais vulneráveis à crise. O JP Morgan Writefriars, por exemplo, que é o fundo global deste banco estadunidense, acaba de anunciar que já adquiriu 23% das ações preferenciais do Indusval, especializado em financiamentos a médias empresas. E comprou barato já que em julho do ano passado as ações do Indusval valiam R$ 17,50 a unidade. No dia 17/10/2008 as mesmas ações foram cotadas a R$ 5,80 a unidade. O banco Panamericano teve 7,5% de sua ações preferenciais adquiridas pela Banca Privada d´Andorra, situado no principado de Andorra, localizado entre a Espanha e a França, nos Pirineus. Já no segundo caso, encontramos a Cooperativa Aurora, de Chapecó, suspendendo seu investimento de um frigorífico em Carazinho por tempo indeterminado. Paralelamente, no cenário mais global, o movimento de fusões e aquisições das indústrias de mídia e informação, entre janeiro e setembro de 2008, recuou 70% em valor dos acordos e 2,7% no número de transações, quando comparado com o mesmo período do ano anterior.
Selic estaciona
O Copom decidiu, com racionalidade, estancar a alta do juro básico da economia brasileira, a Selic. A tendência, segundo nosso sentimento, era efetivamente de um pequeno aumento de 0,25% ou aumento nenhum para esta reunião de outubro. O fato de mantê-la em 13,75%, pelo menos momentaneamente (uma última reunião no ano está programada para dezembro), mostra que o governo está preocupado com a recessão mundial que se instala (as principais economias do mundo não deverão registrar aumento do PIB em 2009), com seus reflexos no Brasil. O crescimento de 3,5% para o próximo ano, projetado para nosso país ainda em setembro passado, pode ficar abaixo disso, quando se espera algo entre 4,5% e 5% para 2008 e contra 5,3% confirmados em 2007. Na prática, o Copom decidiu apostar no esforço de manter um mínimo de indicativo em favor do crescimento econômico, mesmo correndo o risco de ver acelerada a inflação nacional, agora pela desvalorização do Real. Na prática, espera-se que as ações do Banco Central brasileiro no mercado cambial, associadas a um processo de retorno à calma na economia mundial, permita segurar o dólar ao redor de R$ 2,00 no final do ano e que a redução parcial da demanda, diante da crise, segure os preços internos.
A crise já entrou em casa
Infelizmente os prognósticos relativos à crise financeira mundial estão se confirmando, no longo prazo. A economia real vem sendo duramente atingida pela mesma, num momento em que apenas o fundo do poço parece estar sendo alcançado. O crédito continua restrito para o setor exportador, apesar das iniciativas oficiais; o crédito interno para os setores endividados praticamente sumiu, com os bancos fechando as portas; as vendas no comércio em geral começam a baixar, indicando um Natal bem mais magro; e o desemprego já aparece. Empresas começam a demitir funcionários enquanto outras avançam férias coletivas. Para piorar o quadro, na Região Sul do Brasil, e particularmente no Rio Grande do Sul, local onde o agronegócio tem um papel fundamental na economia, mais uma vez o clima não colabora e vem provocando perdas importantes no setor. É o caso do trigo, por exemplo, cuja safra, após os temporais de outubro, já está sendo recalculada, podendo acusar perdas de até 25% no volume, sem falar na qualidade, nas lavouras gaúchas. Tal realidade atinge igualmente outros setores, como hortigranjeiros, aveia, frutas e criação de animais. Neste contexto, a crise já não está mais batendo à porta. A mesma já entrou em nossas casas e, mais do que nunca, será preciso muito controle dos gastos, investimentos e outras ações econômico-financeiras para suportá-la. Principalmente porque, em termos mundiais, a mesma tende a ser longa, podendo durar ao redor de dois anos, senão mais.
O preço do leite
A maior oferta nesta época do ano, somada aos pesados investimentos no setor produtivo, a partir da euforia pela instalação de novas indústrias no Estado, levaram os produtores rurais a imaginar que os preços do leite se manteriam acima de R$ 0,50/litro. Infelizmente nem sempre isso se confirmará. A queda dos preços gaúchos, em termos médios, para R$ 0,45/litro neste final de outubro, com amplas regiões recebendo mesmo abaixo de R$ 0,35/litro, comprova que o mercado é complexo. De um lado, as novas indústrias, embora algumas já inauguradas, começarão a operar a pleno vapor apenas em 2010. De outro lado, a parte industrial é oligopolizada e continuará funcionando como tal, ou seja, tende a combinar o preço dentro de parâmetros que nem sempre cobrem os custos dos produtores. Enfim, diante da crise econômica atual, a demanda de leite e derivados por parte da população deve sofrer redução no país, enquanto as exportações, embora em crescimento, estão longe de aliviar a oferta em crescimento. Tudo indica que o setor caminha para mais um processo de seleção de produtores, particularmente junto àqueles que não poderão suportar preços ao redor de R$ 0,40 a R$ 0,45/litro, o qual tem sido a média dos últimos quatro anos no Rio Grande do Sul.