Um dos maiores desafios atuais da humanidade é construir um modelo de produção alimentar em escala planetária, que satisfaça o avanço populacional, sem comprometer o meio ambiente. Até o momento a ciência ainda não encontrou uma resposta convincente para tal desafio. A tecnologia agropecuária avança, já adentrando na era da biotecnologia, onde a transgenia ganha espaço importante, porém, sabe-se que isso não é a panacéia para a população mundial.
São apenas passos na direção de se buscar um caminho confiável a fim de se vencer o desafio apontado acima. Nesse exato momento, por exemplo, a própria soja transgênica enfrenta a tradicional reação da natureza, já esperada, onde alguns inços, tipo a buva, se mostram agora resistentes ao glifosato, exigindo novos gastos para combatê-los.
Não se trata de condenar a soja transgênica, já que isso ocorre igualmente com todas as sementes convencionais. Trata-se apenas de compreender que, assim como os produtos convencionais, as lavouras transgênicas igualmente necessitam de rotação de culturas visando maior controle dos inços. Pelo menos é o que os técnicos do setor identificaram até o momento!
Todavia, é preciso fazer muito mais em termos mundiais, se quisermos realmente vencer o desafio indicado. Nesse sentido, o mundo está colocando em prática “um sistema de conservação e de trocas multilaterais de sementes”, visando proteger a biodiversidade que ainda resta no planeta.
Para isso, o projeto se apóia no Tratado Internacional sobre as Reservas Fitogenéticas para a Alimentação e a Agricultura. Esse Tratado foi adotado em 2001 pela maioria dos países do mundo, sob a égide da FAO, órgão da ONU para a alimentação e a agricultura.
A base do processo é a constatação de que ¾ da diversidade das plantas cultivadas desapareceram.
A Economia da genética agrícola (II)
Assim, sobre as 10.000 plantas alimentícias que alimentaram a humanidade, 150 são ainda cultivadas e apenas uma dúzia aproximadamente contribuem com 80% da alimentação vegetal mundial.
Destas, quatro somente (arroz, trigo, milho e batata) cobrem 60% destas necessidades humanas. A concreta possibilidade de, um dia, um ataque de pragas ou peste possa eliminar estas plantas líderes do sistema de monocultura desenvolvido pelo mundo, é que estimula à criação do sistema multilateral de trocas e conservação de sementes.
Todavia, os interesses políticos entre os países ainda precisa ser superado. Hoje são 121 países membros do Tratado, que se reuniram em Túnis (Tunísia) em junho passado, visando avançar encaminhamentos ao problema. Os EUA relutam em aceitar a idéia do “sistema”, assim como o Brasil, a China e o Japão acabaram não assinando o Tratado das Sementes.
Além disso, a soja, a cana de açúcar, o óleo de palma e o amendoim foram excluídos das plantas a serem trocadas por intermédio do Tratado. Mesmo assim a reunião criou um fundo visando encorajar a conservação à campo de sementes nos países em desenvolvimento, assim como a busca de variedades resistentes à seca e doenças.
Até 2014 o fundo deverá possuir US$ 116 milhões, valor que se somará ao 1,1% resultante das vendas de sementes pertencentes ao “sistema de troca multilateral” e que abastece o fundo. O dinheiro em questão é distribuído para projetos de conservação de sementes.
Por exemplo: o Centro Internacional da Batata, com sede em Lima (Peru), guarda 80% das 5.000 variedades de batata existentes no mundo e recebeu US$ 50 mil do Tratado para continuar seu trabalho.
A ideia é oferecer um modelo de tutela sobre um bem público internacional, respeitando as regras de mercado.