...if you control the water, you control the land ... Wallace Stegner, 1954
A crise da água já tem data marcada: 2.020. Então, haverá a globalização da deficiência – hoje, isto ocorre localizadamente. Ou seja, mesmo antes de que se extingam nossas reservas de petróleo, ficaremos sem acesso 'a água. Se isto acontecer, o problema não será a água: será a fome – lembrou Malthus (1798)? Ou seja, precisamos, logo, de uma OWEC (Organization of Water Exploiting Countries) para dar o choque inicial – mas, na verdade, precisamos de uma nova cultura em relação a água.
A escassez de água causa, além de sede, doenças e queda de produção de alimentos e, ainda, tensões sociais e políticas. Ou seja, haverá mortes de causa direta e, também, indiretamente. Hoje, 65 % das internações hospitalares são decorrentes de doenças causadas por água não potável. E, o mais grave: a cada 14 segundos, uma criança morre vítima de doenças hídricas. Hoje, as diarréias são a segunda causa de morte. Por outro lado, grande parte da produção agrícola é devida a irrigação – e foi aí que Malthus falhou. Mas, a dieta vegetariana requer em torno de 1.000.000 litros de água por ano, para apenas uma pessoa. Ou seja, faltando água, cairá drasticamente a produção agrícola. O futuro não será, apenas, sede e doença: será, intensamente, fome – e muita guerra. Como os dinossauros, que também um dia dominaram o mundo, seremos também extintos e, também, por inanição. É apocalíptico, mas é! É Malthus por outra via. A vantagem, em relação aos dinos, é que temos capacidade de análise e, pois, já diagnosticamos o problema – além de termos tempo para tomar as medidas que uma suposta OWEC nos faria tomar! Ou mudamos ou morremos, como indivíduos e como espécie. Lembra do filme de Richard Fleischer, em 1973, com Charleston Heston, que, coincidentemente ocorria em 2.020: Soylent Green (no Brasil: No Mundo de 2.020)? Pois é ...
Hoje, damo-nos ao luxo de limpar superfícies com jato de água, em vez de simplesmente varre-las, como sempre havíamos feito – e, o que é pior: com água de excelente qualidade (potável); ou, displicentemente, deixamos correndo o torneira enquanto, placidamente, escovamos os dentes ou fazemos a barba – pior, ainda: muitas vezes com água aquecida. Varrer a calçada com jato de água consome quatro litros por minuto – isto vale para qualquer torneira aberta: no caso da barba, devem ser consumidos uns vinte litros de água. Uma torneira pingando – que temos o hábito de, displicentmente, deixá-la mal fechada – consome 46 litros por dia (dá um bom banho!).
É certo: a água é naturalmente renovável, mas a reposição não é instantânea – por vezes, pode demorar mais que um período de vida (de uma safra, por exemplo); ou seja, na prática nem sempre pode ser considerada renovável. Por outro lado, tendemos naturalmente a consumir mais água. A população mundial tende a aumentar constantemente, tanto em numero como em estatura e em peso – o que implica em mais alimento mais água mais poluição. No início da primeira onda éramos 6 milhões (10.000 a.a.); atingimos o primeiro bilhão em 1.800; em 1.930 seríamos dois bilhões; setenta anos depois, 6 bi; em 2.020 poderemos ser 9 bi. Em 2.020 as mulheres estarão pesando 70 kg, sendo que 75 % estará com sobrepeso. Ainda, ao elevar-se o nível de vida, eleva-se o consumo também de água – em vez de termos um carro, a família agora tem quatro. Em termos de água, em metros cúbicos por dia, a avaliação do consumo evolue como segue: 100.000.000 (1.800); 300.000.000 (1.930), 1.500.000.000 (hoje = 1,5 km3); 2.700.000.000 (2.020). Hoje, usamos 50 % da água momentaneamente disponível; em 2.020 estaremos usando 75 %. Isto, fisicamente, quer dizer que o sistema hídrico estará sob stress – apenas considerando o volume demandado.
A grande ironia é a de que, olhando-se de fora, 75 % da área do globo é coberta por água. Vivemos, pois, no planeta Água. No entanto, tal água não é doce e representa 97 % da água do planeta. A água doce está nas geleiras e nas águas continentais subterrâneas e superficiais. As geleiras são o grande reservatório de água doce (97 % da água doce), mas – nova ironia – não facilmente disponível, apesar de tecnicamente possível. Assim, resta-nos, como água utilizável, a água doce continental (3 % de 3%). Apesar deste volume parecer grande, quando olhado na escala humana (do metro), ve-se logo, pelos cálculos acima, que, ao contrario, é muito pequeno. Teríamos, pois, que ser conservacionistas. Mas, ao contrário, além do desperdiçarmos, poluímos. Ou seja, apesar de fisicamente existir, não conseguimos aproveita-la por não ter qualidade suficiente.
Usamos a água para diversos fins. As razões disto são as de que ela encontra-se distribuída globalmente e atua como solvente universal, além de ser fácil de transportar. Aqui, há dois fatos óbvios, mas que não se dá a devida importância, por corriqueiros: a água é essencial à Vida; a água é parte essencial do ambiente natural. Quanto aos tipos de usos, o mais evidente é o do abastecimento público; o menos, o da contemplação: a visão do por-do-sol no Guaiba é uma das atrações de Porto Alegre. Isto inclui-se no item lazer, assim como banhar-se, velejar; também, no aspecto lúdico mas com conotações terapêuticas, as estações hidrotermais. No transporte a água é usada para deslocar massas em solução, em suspensão, em flutuação; é o que fizemos, por exemplo, com nossos dejetos. Na produção de energia, transformamos as energias mecânica ou térmica da água em elétrica. Na agricultura usamos na irrigação e na dessententação. Na indústria usamos tanto como insumo (compota, por exemplo) quanto como nos processos (resfriamento, por exemplo). A distribuição é: 40 % abastecimento; 30 % agricultura; 30 % indústria. Um uso importante é o de água para fins ambientais, ainda pouco considerado; por exemplo, a manutenção de um banhado ou a manutenção da temperatura de uma área, pelo calor específico mais elevado da água em relação ao das rochas. Nestes usos ambientais, em termos de consumo, o volume é pequeno mas, em termos de importância, é grande.
A grande vantagem do Brasil é que dispõe de recursos hídricos abundantes. Mas, por outro lado, também é uma desvantagem, pois tendemos a desperdiçá-los. Certamente, seremos grandes exportadores de água potável em futuro muito próximo. Temos tomado algumas ações, como sociedade, no sentido de preservar. A consciência ambientalista tem aumenta, em qualidade e em quantidade. A Constituição Federal de 1988, obrigou-nos a administrar os recursos hídricos socialmente, além de transferir a propriedade do indivíduo ao Estado.
Para poupar água podemos tomar várias ações. Evitar os desperdícios certamente é a primeira e a mais fácil, sendo os vazamentos um importante item aqui. Reciclar, ao reusarmos a mesma água na mesma operação; ou ao reusarmos a água em usos cada vez menos nobres – usar a água do banho para a descarga do banheiro. Adequar a qualidade ao uso: até poderemos usar água para jatear a calçada ou lavar o carro, mas de qualidade inferior àquela de uso humano. Muitas vezes o reuso é até desejável: esgoto pode servir para irrigação, como fertilizante e como água, pois contém os nutrientes necessários às plantas. Ou seja, aquela água que iria simplesmente poluir, agora vai ceder constituintes à geração de alimentos. Evitar ou conter acidentes poluidores e, mesmo, ações poluidoras – como depositar displicentemente frascos de biocidas. Evitar, reduzir, conter os efluentes de nossos dejetos – como o chorume dos aterros sanitários. Relacionado a isto: diminuir a quantidade de rejeitos, diminuindo o consumo, mudando os hábitos de consumo, reciclando o material rejeitado. Estabelecer áreas de preservação ambiental e, pois, da água – como as nascentes e as área de alimentação de aqüíferos. Ou seja, a medida que criamos padrões de qualidade de água para uma região, determinamos, conseqüentemente, padrões de uso do solo adjacente.
Temos que nos aperceber, logo, da possibilidade de crise da água. E crise séria! Assim, teremos tempo de adaptarmo-nos a uma nova ética. Esta, será, no mínimo, aquela defendida por Sandra Postel do Global Water Policy Project, Massachusetts, uma ética “que dá igual peso aos três pilares da sustentabilidade – eficiência, equidade e proteção ao ecossistema”. Temos que ter água para nós mas, também, temos que legar o suficiente aos pósteros e à Natureza.
Antes, tínhamos o ouro negro. Agora, cada vez mais, teremos o ouro azul. A água não é, apenas, um repositório de dejetos ou uma mercadoria inesgotável. Água é Vida e é Ambiente Natural.

