A guerra monetária
A saída da crise econômico-financeira mundial está passando por uma guerra monetária global. Essa preocupação se torna realidade na medida em que o dólar dos EUA perde força no mercado mundial por duas razões: a fragilidade da economia estadunidense após a crise e a deliberada iniciativa de seu governo em deixar o dólar perder força.
Tal estratégia dá maior competitividade às exportações dos EUA, favorece a retomada do crescimento e torna mais barato ao mundo o valor dos títulos que rolam a dívida pública daquele país. Ou seja, os EUA, apesar das negociações multilaterais em torno do G20, estão adotando a estratégia unilateral da desvalorização competitiva.
Outros países tendem a seguir o mesmo caminho, caso da China que já a pratica, Reino Unido e Japão. Nem mesmo o G7, reunido no último dia 03 de outubro em Istambul (Turquia), esboçou reação consistente a tal estratégia estadunidense.
Assim, os investidores e especuladores financeiros, aproveitando-se do juro a quase zero por cento nos EUA, estão utilizando o dólar como “divisa de financiamento”.
Na prática, a partir da falência do banco Lehman Brothers, em setembro do ano passado, os investidores estadunidenses repatriaram seus dólares para cobrir as perdas causadas pela crise. Com isso, o dólar ganhou força no mundo, tendo chegado a R$ 2,44 no Brasil no início de março de 2009.
Diante da relativa normalização da economia, tais investidores voltaram a diversificar seus ativos financeiros e espalharam novamente dólares pelo mundo, derrubando o valor desta moeda.
Alguns analistas chegam a prever a derrocada geral da moeda norte-americana. Todavia, isso parece impossível já que os bancos centrais dos diferentes países, que possuem suas moedas atreladas ao dólar, estão reagindo comprando a “moeda verde”.
A guerra monetária (II)
É o caso do Brasil que, com tal estratégia, aumentou suas reservas internacionais para mais de US$ 230 bilhões nas últimas semanas. Em termos mundiais, somente em agosto, tais reservas aumentaram em US$ 200 bilhões.
Por outro lado, a fraqueza do dólar vem provocando uma forte alta nas outras moedas do mundo. De março para cá o dólar canadense ganhou 20%, o dólar australiano 40% e o neozelandês subiu 47%.
O Real brasileiro ganhou 30,7% no período (até o dia 16/10) enquanto o euro voltou a bater na casa do US$ 1,50 por euro. Nesse momento, o mercado aposta que os produtores de matérias-primas e a China serão os países mais beneficiados com a saída da crise.
Todavia, o fortalecimento de suas moedas implica em perda de mercado externo e comprometimento do retorno ao crescimento econômico. Na Europa, por exemplo, uma apreciação de 10% do euro, de forma persistente, implica em 1% a menos de crescimento da economia em 2010, pelo menos.
Assim, esses países não poderão assistir a um retorno de seu crescimento no próximo ano. E, na medida em que o recurso público para de irrigar as economias, os diferentes países descobrem que seus mercados internos continuam fracos. Somente uma desvalorização de suas moedas poderia ajudar, fato que vem sendo feito pelos EUA.
Já no Brasil, dentro do regime de câmbio flutuante, adotado desde 1999, não se pode mais fazer isso por “canetaço” sob pena de desestruturar a economia e voltarmos ao caos inflacionário.
Assim, nosso país, penalizado pela situação, ao ver sua moeda sobrevalorizar tão rapidamente, inicia o uso de outras armas de combate ao problema.
É o caso da aplicação de IOF (imposto sobre operações financeiras) sobre capitais especulativos procedentes do exterior, anunciada no dia 19 de outubro.