Neste momento é o cultivo de inverno que assume importância no cenário econômico da região Sul do Brasil. Diversas são as opções desde que o trigo perdeu força. Começando pela cevada, passando pelo triticale e terminando na colza, a região busca implantar novos produtos como opção econômica nesta época do ano. No entanto, o trigo continua sendo uma cultura importante, embora dentro de novos padrões de área, plantio, tecnologia, volume e mercado.
Não estamos mais na época dos subsídios fartos e compras estatais do cereal. Não estamos mais na época do mercado protegido frente às importações de trigo do resto do mundo, em especial da Argentina. Hoje, o mercado está quase totalmente aberto ao produto externo. Da Argentina, o produto vem livremente, dentro do contexto dos acordos estabelecidos no Mercosul. Dos outros países do mundo, o grão de trigo sofre uma tarifa externa de 13% ad valorem.
Frente a este quadro. a área e a produção nacional recuaram nesta última década. E tudo indica que, em persistindo este sistema econômico, a mesma não deverá variar muito além destes novos padrões. Ou seja, uma área ao redor de 1,5 milhão de hectares e uma produção, em clima normal, em torno de 2,5 a 3,0 milhões de toneladas. No entanto, mister se faz destacar que a pesquisa continua trabalhando firme na busca de variedades cada vez mais compatíveis com as diferentes regiões brasileiras. E será através dela e seu avanço que a triticultura poderá ganhar mais espaço do que o lugar que hoje é o seu.
Isto dito, neste ano de 2001, alguns elementos específicos poderão auxiliar no crescimento da produção tritícola nacional. A tal ponto que as primeiras projeções indicam uma área nacional a ser plantada de 1,51 milhão de hectares (+7% sobre 2000) e uma produção nacional de 2,95 milhões de toneladas (+78% sobre a frustrada safra do ano anterior). O Rio Grande do Sul, segundo maior Estado produtor de trigo no Brasil, deverá participar com 570.000 hectares (+8% sobre 2000) e uma produção total de 1,05 milhão de toneladas neste ano (+18% sobre 2000).
Os elementos em questão são de duas ordens: a redução na produção de alguns principais produtores mundiais, especialmente EUA e União Européia; e a forte depreciação do real nestes últimos meses. No primeiro caso, temos que a produção mundial deverá recuar para 572,35 milhões de toneladas após 580,34 milhões no ano 2000/01. Esta seria a menor colheita nos últimos quatro anos. Na Europa, as fortes e contínuas chuvas estão prejudicando a triticultura. No Reino-Unido, por exemplo, o volume esperado é no máximo de 13 milhões de toneladas contra 16,8 milhões no ano passado. No total, a União Européia deverá colher, neste ano, 95,6 milhões de toneladas de trigo após 103,7 milhões no ano anterior. Já nos EUA, a colheita prevista, de 53,38 milhões de toneladas, é uma das menores dos últimos anos. No caso do trigo de inverno, a mesma será a mais fraca dos últimos 20 anos naquele país. No segundo caso, o real brasileiro, que no final de fevereiro era cotado em R$ 2,04, passou a R$ 2,39 nos primeiros dias de junho. Ou seja, em três meses nossa moeda perdeu cerca de 17%. Para os padrões atuais, uma maxidesvalorização momentânea. Com isso, o trigo importado da Argentina e de outras regiões do mundo encareceu em reais, tornando mais competitivo o produto nacional.
De fato, o produto argentino, que no final de fevereiro estava cotado em US$ 126,00/tonelada nos portos do sul da região produtora argentina (equivalente a R$ 257,04/tonelada pelo câmbio da época) passou, neste início de junho, a valer US$ 133,50/tonelada (equivalente a R$ 319,06/tonelada pelo câmbio deste início de junho). Com isto, nossos importadores são obrigados a darem mais reais (24,1% a mais) pela mesma quantidade de produto.
O efeito destes fatores sobre o preço nacional é imediato. Os preços médios ao produtor, no Rio Grande do Sul, chegaram, no início de junho, a R$ 14,58/saco de 60 quilos contra R$ 12,44/saco na mesma época do ano passado. Ou seja, o preço nominal atual é 17,2% acima do praticado no ano passado. Evidentemente, estamos na entressafra e, com ela, sempre os preços internos sobem. Haja vista que no ano passado, diante de uma colheita frustrada, o produto gaúcho chegou no final de novembro (após a colheita) a R$ 11,81/saco. Neste ano, mesmo com o recuo previsível dos preços para o final do ano, os atuais fatores citados poderão manter o produto num patamar mais elevado.
No entanto, muito irá depender do comportamento do câmbio (existem projeções de que o real deverá voltar a se apreciar, terminando o ano entre R$ 2,05 e R$ 2,10) e da colheita argentina (a mesma., para o ano 2001/02, vem sendo projetada para algo acima das atuais 17 milhões de toneladas). Caso estes dois fatores ocorrerem, associados a uma safra normal e maior no Brasil, os preços do nosso trigo, mesmo o de qualidade superior, tenderia a recuar bastante. No Rio Grande do Sul, o mesmo poderia novamente se aproximar do preço mínimo oficial (proposta de R$ 225,00/tonelada para o produto tipo 1, classe melhorador).