A inflação de junho, medida pelo IPCA, foi zero. Com isso, o acumulado do ano ficou em 3,09% e a inflação anualizada (julho/09 a junho/10) alcançou 4,84%, se aproximando mais da meta oficial estabelecida em 4,5% para este ano.
Antes que se tirem conclusões apressadas, do tipo “a economia desaqueceu e, portanto, os juros não precisam mais subir”, torna-se necessário analisar o contexto dos fatos. Sabe-se que historicamente a inflação mensal sempre recua em períodos de Copa do Mundo, salvo para produtos tipo televisores. Assim, estamos diante de um movimento atípico!
Ou seja, a tendência continua sendo de continuidade na pressão inflacionária, mesmo porque se projeta um crescimento acima de 7% para o país neste ano. Além disso, a inflação de julho de 2009 foi bastante baixa (0,24%), indicando que qualquer percentual acima disso em julho de 2010 já fará o acumulado do ano e o índice anualizado subir novamente.
Outro elemento a considerar é que o aumento dos juros (Selic), iniciado em abril, ainda não está fazendo efeito sobre o mercado de forma direta (o mesmo leva aproximadamente seis meses para se fazer sentir na economia real). Assim, a estagnação da inflação em junho se deve a fatores conjunturais e não deve se repetir nos meses seguintes, salvo se realmente o forte endividamento da sociedade brasileira esteja fazendo a população tomar subitamente consciência de sua situação, levando a uma importante freada no consumo.
Desta maneira, a tendência continua sendo de aumento na taxa de juros. A próxima reunião do Copom, prevista para o final de julho, deverá elevar a Selic em mais 0,5 ou 0,75 ponto percentual.
Aliás, a projeção do mercado financeiro, para o final do ano, já está em 12,25% para a Selic, pois na prática o governo mira o ano de 2011, já que o Brasil não suportaria um novo ano com um crescimento da envergadura dos 7%, projetados para 2010, por absoluta falta de infraestrutura e capacidade produtiva para atender a consequente demanda.
Juros altos, fundos melhoram
Na medida em que os juros se elevam no Brasil, alguns ativos perdem e outros ganham. Dentre os perdedores está o valor do dólar no país. A tendência é a entrada de mais dólares especulativos em busca dos altos juros, fato que pode elevar o rendimento dos Fundos de renda fixa e a poupança porque mais investidores a eles acorrerão e porque muitos dos Fundos estão parcialmente indexados no comportamento dos juros internos.
Paralelamente, a Bolsa de Valores pode perder aplicações, pois a elevação dos juros impacta negativamente sobre as empresas cotadas em Bolsa, além de que seus rendimentos neste ano estão muito aquém do desejado. Nesse sentido, até o dia 07 de julho a Bovespa registrava uma perda acumulada de 7,73% nesse ano.
Na economia real, a entrada de mais dólares no país continuará enfraquecendo as exportações e acelerando as importações.
Com isso, produtos como a soja, que nesse momento veem seus preços estabilizarem, poderão sofrer novas quedas pelo maior fortalecimento do Real caso não sejam tomadas medidas paralelas para conter a entrada de dólar especulativo.
Semestre ruim para o comércio externo
A balança comercial brasileira terminou o primeiro semestre de 2010 confirmando a tendência negativa. Puxadas pelo Real sobrevalorizado, as importações no semestre atingiram a US$ 81,3 bilhões, registrando um crescimento de 43,9% sobre igual período do ano passado.
Enquanto isso, as exportações ficaram em US$ 89,2 bilhões, acusando um crescimento de 26,5% sobre 2009. Desta forma, o saldo comercial nos primeiros seis meses do ano caiu 43,3%, se estabelecendo em apenas US$ 7,9 bilhões. Nestas condições, a tendência para o final do ano é do Brasil registrar um saldo final entre US$ 10 e US$ 14 bilhões, ou seja, metade do registrado em 2009. Por enquanto, no acumulado de 12 meses (julho/09 a junho/10) o saldo comercial é de US$ 19,26 bilhões, ou seja, 30,1% a menos do que o verificado um ano antes.
Ocorre que o movimento importador tende a ser naturalmente mais forte no segundo semestre, em permanecendo o atual câmbio, assim como, pelo crescimento do país em 2010, as importações estarão muito mais significativas do que no mesmo período do ano passado.
O mesmo não se poderá dizer das exportações, já que a economia mundial continua sob forte crise e o câmbio permanece desfavorável.
Especuladores voltam à Chicago
Mais uma vez, sem nenhuma razão ligada efetivamente à economia real, as principais commodities mundiais viram suas cotações se elevarem, nesta semana, nas bolsas de mercadorias.
A soja, por exemplo, voltou a romper o teto dos US$ 10,00/bushel, fechando o dia 08/07 em US$ 10,12. Isso num momento em que a área semeada com soja nos EUA subiu 2% e a projeção de produção naquele país, em clima normal, chega ao recorde de 92,5 milhões de toneladas. Isso tudo após um recorde de 133 milhões na América do Sul e de 91,4 milhões de toneladas nos EUA produzidas na última safra, sem falar num aumento de 95% nos estoques finais estadunidenses e um crescimento nos estoques finais mundiais de 2,3% projetados para 2010/11, na sequência de um crescimento de 50% já obtido no ano anterior.
Paralelamente, o consumo mundial de soja cresceu apenas 6,3% em 2009/10, contra uma produção que aumentou 22,3%. Mesmo que o clima nos EUA (excesso de chuvas) seja um elemento que possa justificar alguma alta de cotações no momento, é certo que estamos diante de pura especulação. Não sendo efeito de uma nova bolha, isso não deverá durar muito, particularmente se a safra venha cheia na América do Norte.
Tanto é verdade que em Chicago, para novembro, as cotações do grão estão 6,5% mais baixas do que os valores praticados agora em julho.