Os índices de inflação em 2008 foram muito elevados em relação ao que vinha ocorrendo em anos anteriores. Os mesmos deveriam temperar o entusiasmo oficial, que enxerga apenas a necessidade de reduzir a taxa básica de juros (Selic), na ânsia de evitar um colapso no crescimento da economia em 2009 e, com isso, comprometer o futuro político de quem está no poder. É verdade que o país conteve o IPCA abaixo do teto da meta, ao fechar o ano passado com uma inflação de 5,9%.
Por si só esse é um fato positivo perante o quadro que existia no país. Todavia, importante se faz lembrar que a inflação de 2007, medida por esse mesmo índice, ficou em 4,46%. Isso representa um acréscimo inflacionário de 32% em 12 meses.
Além disso, em 2006 o IPCA já havia ficado em apenas 4,18%, embora nos anos anteriores o mesmo tenha registrado percentagens mais elevadas, chegando mesmo a 14,72% em 2003. Mas é de forma localizada e conforme as diferentes classes sociais que se nota a importância desta nova alta da inflação e o perigo de se baixar a guarda em relação à mesma.
Em Porto Alegre, por exemplo, a inflação chegou a 8,19%, contra apenas 2,39% dois anos antes, se constituindo no mais elevado índice nos últimos seis anos, sendo que o setor “alimentação” bateu em 11,82%, justamente o que mais atinge as classes menos favorecidas. Já o IGP-M, que serve para corrigir aluguéis no país, é o mais elevado dos últimos quatro anos ao atingir 9,81%, após 3,83% em 2006 e 7,75% em 2007. Por sua vez, o Índice de Preços ao Consumidor-Brasil (IPC-Brasil), que abrange famílias com renda de até 33 salários mínimos terminou o ano com alta de 6,07%, sendo que a alimentação representa 40,98% dos gastos das famílias que ganham de um a dois salários mínimos e meio. Nesse índice, a alimentação subiu 12,14% no ano.
Mas o pior ainda se encontra na evolução do custo da cesta básica. O mesmo subiu 29,31% em João Pessoa no ano passado. Em Natal, se elevou em 26,73%, em Florianópolis 25,26%, em Porto Alegre 19,7% e assim por diante. Ou seja, o custo de vida para as famílias mais pobres, que são a maioria neste país, subiu assustadoramente em 2008. Desta forma, na medida em que a taxa de juros é utilizada também e principalmente como um elemento de contenção dos preços, dentro da teoria monetária, reduzi-la apenas por questões políticas acaba sendo socialmente um “tiro no pé”, já que poderemos estar alimentando ainda mais a alta dos preços. E era isso que o governo vinha fazendo desde 2007, com o acréscimo da especulação financeira internacional na primeira metade do ano passado.
O que salvou o país de uma inflação maior, mesmo com o Copom elevando os juros durante quase todo o ano, foi a crise mundial que acabou freando e reduzindo os preços, em especial de alguns alimentos, pela via de uma freada na própria economia, a qual deverá prosseguir em 2009. Nesse sentido, o Banco Central continua pressionado. Sabe muito bem que não pode ceder nos juros, porém, sabe que uma redução nos mesmos se torna necessária para reanimar a economia, e para isso vem sendo politicamente empurrado.
A próxima reunião do Copom, prevista para esta terceira semana de janeiro/09, dará o tom de como serão as coisas nessa área futuramente. Uma pequena redução de juros durante o ano é possível, porém, será preciso encontrar o meio termo tecnicamente correto, sem cair em tentações populistas de curto prazo.
Caso contrário, a melhoria da renda que a sociedade conseguiu nesses últimos anos estará sendo corroída pelo aumento de preços, virando ficção como, aliás, ocorreu parcialmente em 2008.