Uma das grandes incógnitas existente hoje na economia mundial, que tenta sair de sua pior crise desde 1929, se traduz pela seguinte pergunta: em os Estados retirando seu apoio ao consumo (isenção de impostos e outros mecanismos) o mercado já terá se recuperado suficientemente para retomar seu lugar e puxar o crescimento econômico aos níveis pré-crise?
Ou seja, até aqui a chamada muleta estatal permitiu impedir uma crise ainda maior na economia global, embora a recessão tenha se estabelecido em muitos países. O problema, agora, é sair do fundo do poço e iniciar um processo de decolagem sustentável, retornando aos níveis anteriores.
E isto está longe de ser tranquilo no cenário mundial. Por enquanto a resposta à pergunta acima seria não. O problema é que os Estados já alcançaram, aparentemente, seus limites no apoio à economia. Paralelamente, as medidas concretas de saneamento da economia não avançam na velocidade necessária, sendo que recaídas importantes podem ocorrer, como está sendo o caso dos PIIGS, representados especialmente pela Grécia.
Ao mesmo tempo, as lições da crise parece não estarem sendo assimiladas. Nesse sentido, sabe-se agora que os principais bancos dos EUA (e talvez de muitos outros países) estão maquiando novamente seus balanços “a fim de passarem a impressão ao mercado de estarem mais saudáveis do que de fato estão”. E isso nos últimos cinco trimestres! Em o fazendo, chegaram a reduzir em 42% seu nível de endividamento. Ou seja, novas bolhas financeiras estão sendo criadas realmente!
A muleta estatal e o crescimento (II)
Por sua vez, na economia real, a política keynesiana adotada pelos países para enfrentar a crise, pois é disso que se trata, ao chegar ao fim deve comprometer o crescimento econômico. O Brasil, que espera recuperar seu PIB de 5% ao ano em 2010, também enfrenta o problema.
A teoria econômica nos explica que o consumo agregado de uma nação é definido pela renda nacional disponível, a qual é resultante da renda nacional bruta menos os impostos. Ora, ao reduzir os impostos o governo efetivamente aumentou a disponibilidade de renda e induziu a um aumento no consumo agregado.
Com isso, os setores empresariais beneficiados pelo movimento respiraram melhor e acabaram vendendo muito. Afinal, a propensão marginal a consumir, em países subdesenvolvidos, é sempre maior do que a propensão a poupar. A partir daí o efeito multiplicador dos gastos é maior, fazendo com que a economia se aqueça mais. Isso permitiu que o Brasil, mesmo recuando fortemente seu PIB, conseguisse estancá-lo em –0,2% em 2009.
Agora, com o retorno dos impostos aos seus níveis iniciais, a renda disponível, salvo outros mecanismos a serem postos em prática, irá diminuir e o consumo a frear, podendo naturalmente comprometer o crescimento econômico esperado, assim como a geração necessária de empregos. Particularmente depois que os estoques forem repostos!
A venda de carros modelo acima de 2.0, cuja isenção de impostos terminou em 31/12/2009, é um claro alerta. A mesma caiu 35% nos dois primeiros meses de 2010. Apenas em fevereiro a queda foi de 43%.