A crise financeira internacional, além de estar pouco a pouco freando a economia brasileira, na esteira do que vem ocorrendo no mundo, evidencia um problema anunciado: o recrudescimento da inflação. O aumento dos preços nacionais já vinha ocorrendo pelo aquecimento da economia, provocado pelo crescimento na disponibilidade de crédito, com apoio oficial, particularmente a partir de 2007, assim como pela entrada de capitais externos. A tal ponto que o Copom, apoiado pelo Banco Central, vinha aumentando a taxa de juros básica (Selic) já há alguns meses. O problema agora é de desenho mais complexo. Como conter a inflação via aumento do juro, inflação esta alimentada atualmente pela forte desvalorização do Real, num momento em que se precisa até mesmo reduzir os juros para manter um mínimo de crescimento econômico possível? Na sua reunião de outubro, o Copom acabou optando pelo meio termo, deixando a taxa de juros no mesmo patamar anterior, ou seja, em 13,75% ao ano. No entanto, os índices inflacionários referentes a outubro passado e recentemente divulgados, trouxeram novas preocupações neste sentido. Todos subiram fortemente em relação a setembro, elevando a inflação anual largamente acima do centro da meta inflacionária estabelecida (4,5% ao ano) e mesmo ultrapassando o teto desta meta (6,5% ao ano). O IPCA, que é o índice oficial para calcular a inflação brasileira e no qual tais metas estão ancoradas, atingiu a 0,45% em outubro, contra 0,26% em setembro, ou seja, um crescimento de 73%. No acumulado dos 10 primeiros meses do ano o mesmo chega a 5,23% e no acumulado de 12 meses atinge a 6,41%, devendo romper o teto da meta ainda em novembro caso o ritmo de outubro se mantenha.
A pressão inflacionária se mantém (II)
Por sua vez, o INPC, que serve de referência para os reajustes salariais das diferentes categorias de empregados no Brasil, subiu 0,50% em outubro, após 0,15% em setembro, contabilizando um aumento de 233% em um mês. No acumulado do ano de 2008 o mesmo atinge a 5,77% e no acumulado de 12 meses chega a 7,26%. Por sua vez, o IGP-M, que serve para reajustar determinadas tarifas, além de aluguéis e outros serviços, cresceu 0,98% em outubro, contra apenas 0,11% em setembro. No acumulado do ano bate em 9,53% e em 12 meses atinge a 12,23%. O IGP-DI, outro índice importante na vida econômica nacional, segue a mesma linha, atingindo a 1,09% de aumento em outubro, após 0,36% em setembro, acumulando 9,51% nos primeiros 10 meses de 2008 e 12,29% em 12 meses. Frente a tal quadro, o governo se vê diante de três opções, todas ingratas. A primeira, continuar injetando crédito na economia, até o limite de suas possibilidades, visando manter um mínimo de crescimento econômico (já começa a formar consenso de que 2009 poderá registrar um PIB abaixo de 3,0% e mesmo de 2,5%), mesmo que a inflação continue se elevando, contaminada particularmente pelo câmbio. Em segundo lugar, esperar que a economia desaqueça fortemente, puxando para baixo os preços pela redução da demanda, aceitando assim um PIB bem menor no próximo ano (uma expectativa de alguns setores do governo). Enfim, juntamente com a continuidade na ação do Banco Central em controlar o câmbio via a venda de dólares no mercado, aceitar que o Copom, em sua próxima reunião de dezembro, retome o aumento da Selic, provavelmente entre 0,25 e 0,50 ponto percentual, fato que também freia a economia no médio prazo. A lógica indica que o caminho tende a ser a terceira opção.