O vizinho país, diante de uma recuperação no seu crescimento econômico, após o desastre dos anos 2001/02, vem sendo apontado por muitos como um modelo a ser seguido pelo Brasil. Ledo engano! O crescimento da Argentina vem no contexto de uma bolha econômica, movida por medidas populistas assumidas pelo governo Kirchner. Neste contexto, a estabilidade econômica do país está ruindo, colocando em xeque o futuro do país. Alguns indicadores, recolhidos na semana passada "in loco", nos mostram a realidade. Em primeiro lugar, a inflação dispara. Oficialmente, a mesma já está ultrapassando os 12% anuais, apesar do mecanismo de controle de preços via acordo com os empresários. No entanto, apenas uma pequena gama de produtos está sob controle (250 produtos de um total superior a 10.000 itens), e servem de parâmetro para a medida inflacionária oficial. Os demais produtos, em mercado livre, tiveram um aumento ao redor de 60% nos últimos 12 meses. Os custos do Estado são elevados, afinal o inchaço do mesmo está igual ou pior do que o visto no Brasil. Assim, a cobrança de impostos cresce, chegando ao redor de 38%. Ou seja, semelhante à brasileira. Apenas em maio, a arrecadação de tributos crescerá mais de 10%, em relação ao mesmo mês do ano passado, chegando a 13 bilhões de pesos (um recorde). Os trabalhadores argentinos devem despender quatro meses e meio para pagar todos os impostos. No Brasil, chegamos a quase cinco meses. Paralelamente, o governo argentino espera, para 2006, um recuo do desemprego após 13 anos na casa dos dois dígitos. O mesmo, oficialmente, ficaria entre 9% e 9,5%. Todavia, cresce a informalidade de forma assustadora. A Argentina parece construir um cenário delicado para o seu futuro.
BRASIL: recaída ou ajuste econômico?
Talvez a resposta mais correta seja um ajuste econômico. Na prática, o que assistimos na economia nacional, nestes últimos dias, caminha para um ajuste que levaria a mesma para níveis normais. Confirmando que a maior causa de nossa euforia bursátil e cambial vinha do exterior, bastou os EUA elevarem seus juros básicos para 5% e projetarem novos aumentos no mesmo, na medida em que a economia local se mostra mais aquecida do que o desejado, para o mercado iniciar um movimento de reversão de tendência. Resta saber se o mesmo implicará em ajustes estruturais nos diferentes setores econômicos do Brasil. Num primeiro momento, a possibilidade de maior saída de dólares, elevou a moeda estadunidense rapidamente para níveis ao redor de R$ 2,30. Lembramos que o correto, dentro da paridade de poder de compra dos últimos quatro anos, era estarmos com um câmbio ao redor de R$ 3,20 neste momento. Este movimento cambial poderá muito bem frear o corte nos juros nacionais, medidos pela Selic, já na próxima reunião do Copom, prevista para os dias 30 e 31 deste mês de maio. Em segundo lugar, o risco Brasil voltou a subir, chegando a 278 pontos (o maior nível desde o final de janeiro). Com isto, o custo da captação de dólares, no exterior, fica maior, inibindo investimentos. Enfim, temos o comportamento da Bovespa. As ações, que vinham subindo constantemente, fora de qualquer padrão lógico para uma economia que gerou apenas 2,3% de aumento no PIB em 2005, despencaram nos últimos dias. Na segunda-feira (22) o índice chegou a 36.496 pontos, após ter chegado a mais de 41.000 pontos ainda no início de maio. E o recuo não deve terminar aí, pois o setor está muito especulativo. No fundo, acontece o esperado e necessário. Estamos voltando à realidade!