Convivemos hoje com leilões e feiras de gado de raça de alta genética, animais cujos preços são tidos, muitas vezes, como exorbitantes. Alta pressão de seleção genética, inseminação artificial, transferência de embriões e, mais recentemente a clonagem de animais. Enfim, alta tecnologia e marketing evaporando por todos os poros...
Em termos tecnológicos, podemos dizer que nunca foi assim, porem em termos de marketing, preços, romantismo e paixão, nada se compara a “FEBRE do GIR”, que nosso país viveu nas idas décadas de 30, 40 e 50. Portanto gostaríamos de contar uma historia cujas passagens e fatos, envolvem gente nossa, da nossa região, e relata a saga de uma linhagem da raça gir, que se inicia com a vinda para o Brasil de um touro chamdo “Gaiolão”.
A Viagem
Estamos em 1931, ocasião do retorno do senhor Ravisio Lemos e sua esposa dona Mariana, da Índia, pais origem de todas as raças zebuínas. Após boas compras e uma feliz estadia naquele país retornam no navio, em cujos porões foram acomodadas dezenas de exemplares da raça gir, dentre estes varias matrizes prenhes e alguns tourinhos.
Como não poderia deixar de ser, uma viagem longa e com uma carga como aquela exigiu cuidados especiais e muitos preparativos, como um bom estoque de alimentos e de água. Assim sendo, zarparam do porto de Bombaim com a capacidade de carga praticamente no limite.
Numa noite, depois de muitos dias em alto mar, depararam com uma terrível tormenta. Ondas gigantescas ameaçavam a embarcação. O “corre-corre” e a gritaria eram medonhos. Em sua cabine dona Mariana rezava. Nos porões Sr. Ravizio tentava acalmar os animais. Porem a tempestade não cedia... Até que num determinado momento o capitão do navio convocou toda tripulação e falou:
- Senhores, é imprescindível que esvaziemos a embarcação ou é certo que iremos a pique. Todos os animais, seus alimentos e sua água devem ser atirados ao mar imediatamente. São eles ou seremos nós...
Diante disso, senhor Ravizio concluiu que tudo estava perdido. Não teve outra alternativa a não ser concordar.
Vendo toda aquela movimentação, dona Mariana correu aos porões, e para sua alegria verificou que uma bela novilha que havia criado um lindo bezerrinho poucas horas antes, ainda estava lá. Não pensou duas vezes, falou com o marido e correram até o capitão. Ela disse:
- Capitão, como bom cristão, e tenho certeza, como devotado pai de família, o senhor não pode permitir tal maldade, atirar a mãe e seu filhinho recém nascido para uma morte horrível como esta... Afinal, que diferença eles poderiam fazer quanto ao peso do navio?
Aquela argumentação desarmou o rígido capitão. Assim a novilha e seu filho batizado como Gaiolão chegaram sãos e salvos ao porto de Santos no inicio do ano de 1932.
O jeitinho brasileiro
Os anos se passaram, a “aura” desta historia e suas qualidades raciais – para os padrões da época – envolveram o touro Gaiolão. Mas foi a partir de 1936, após ser adquirido pelo senhor Nilo Jacintho Lemos, profundo conhecedor da raça gir, e pelo seu cunhado, Dr. Julio Batista da Costa, casado com dona Honorina lemos, advogado por profissão e fazendeiro por vocação, que passou a ser considerado um dos melhores raçadores Gir de seu tempo. Uma cobertura sua passou a valer dezenas de contos de réis, e seu valor era talvez incalculável.
Em 1938, ano do acontecimento da grande exposição nacional da raça gir, concentrou todos os grandes “Zebuzeiros” do país no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. A movimentação era intensa, o disse me disse e as apostas corriam soltas... Chegou o grande dia, dentre todos os baluartes, ia sair naquele dia o Grande Campeão da Raça Gir, fruto do primeiro julgamento realmente “oficial” da raça.
Finalmente, após todas preliminares e protocolos, o touro Gaiolão foi proclamado o grande campeão da raça gir de todos os tempos...
A algazarra era ensurdecedora, gritos e mais gritos de vivas, foguetório para todo lado. Gaiolão já estava sendo preparado para o grande desfile em carro aberto quando um dos juizes veio ao microfone comunicar que o julgamento estava cancelado por ordem judicial:
- Infelizmente, temos aqui uma ordem judicial cancelando o campeonato. Como se trata de uma feira estritamente nacional, o julgamento foi considerado ilegal, pois o touro Gaiolão não nasceu no Brasil!
Aquilo foi como um balde de água fria na cabeça de todos... O que fazer agora? A revolta começava a tomar corpo junto aos partidários do touro Gaiolão, quando um de seus proprietários, Dr. Julio Costa, pessoa ativa e de muita iniciativa, “incorporou” instantaneamente seu lado advogado e tomou para si a resolução do problema. Localizou o juiz que determinara o cancelamento e datilografou ali mesmo um mandato de segurança alegando que Gaiolão era sim brasileiro! Pois apesar de haver nascido no mar, já se encontrava em águas territoriais brasileiras e em navio de bandeira brasileira! Portanto em território nacional... Diante desta argumentação o juiz se viu obrigado acatar o mandato e validar o julgamento.
Afinal quem poderia afirmar o contrario??

