Na teoria econômica existem pelo menos três tipos de câmbio: o fixo, a banda cambial, e o flutuante (flexível). Desde o lançamento do Plano Real o Brasil já experimentou os três. Até 1999 os dois primeiros, fato que exigiu do Banco Central atuação constante em defesa de um valor do Real que o mercado julgava, com razão, sobrevalorizado. Assim, fomos obrigados a usar as reservas cambiais para proteger o Real, o qual operava com valores artificiais (durante o período de banda cambial o Banco Central definia o valor do câmbio). Em 13 de janeiro de 1999 ficamos tecnicamente sem condições de sustentar tal política, pois as reservas se reduziram em demasia. Naquele momento, o Brasil passa a adotar o sistema de câmbio flutuante, o qual dura até hoje. Tecnicamente chamamos o mesmo de “câmbio flutuante sujo”, pois o Banco Central brasileiro interfere no mercado cambial comprando ou vendendo dólares, visando manter o Real relativamente equilibrado. Isso permitiu que o Brasil aumentasse suas reservas cambiais, hoje ultrapassando os US$ 250 bilhões. Todavia, após o trauma da primeira eleição do Presidente Lula em 2002 (antes do mesmo mudar seu discurso e sua prática), o valor do Real só aumentou em relação ao dólar (salvo em alguns momentos agudos da atual crise econômica mundial, em 2009). Ou seja, a entrada de dólares no país, em busca de nossos altos juros, apoiados por uma estabilidade econômica e política importante, é cada vez maior, acelerada agora pela capitalização da Petrobrás.
A Sobrevalorização do Real (II)
Hoje, o câmbio no Brasil indica R$ 1,70 por dólar, preocupando sobremaneira os exportadores nacionais e, inclusive o governo. Isso porque, quanto mais forte o Real mais difícil fica exportar e mais fácil fica importar, piorando o nosso saldo comercial (salvo exceções). Neste ano de 2010, por exemplo, a tendência é terminarmos o ano com um saldo quase 50% menor do que o registrado em 2009. Além disso, os brasileiros gastam mais no exterior com viagens e turismo (nos primeiros sete meses o saldo negativo nesta conta está ao redor de US$ 3 bilhões). Por outro lado, os produtores rurais, caso da soja, recebem menos pelo seu produto, pois o mesmo tem seu preço de referência em dólares. Mas, como sabemos que o Real está sobrevalorizado? Levando-se em conta uma metodologia de cálculo que considera a inflação no Brasil e nos EUA, e a evolução cambial em determinado período. Por este cálculo, o Banco Central anuncia que o Real estaria hoje 24,4% acima de seu valor “correto”. Ou seja, deveria estar valendo R$ 2,11. Pelo chamado índice Big Mac encontramos a diferença de 31,6%, fato que levaria o Real a R$ 2,24. Para se ter uma ideia do que isso representa na economia real, um saco de soja vale hoje, na média do balcão gaúcho (preço líquido) US$ 22,50. Ao câmbio atual o produtor recebe ao redor de R$ 38,25/saco. Se o Real estivesse em sua paridade correta, com base nos dados do Banco Central, o saco de soja ao produtor gaúcho valeria R$ 47,48. Ou seja, o produtor está perdendo quase 10 reais por saco somente em função do câmbio.