A economia da Argentina está procurando sair de sua imensa recessão, que culminou, em 2002, na pior crise que o país passou em sua história. Na base desta crise viu-se o PIB do país registrar um crescimento negativo nestes últimos anos. De menos 3,4% em 1999 o mesmo chegou a menos 6,2% em 2002, passando por menos 0,8% em 2000 e menos 4,5% em 2001. Em valores, este PIB praticamente voltou aos níveis de 1994. Ou seja, o mesmo atingia US$ 257,4 bilhões em 1994, tendo chegado a apenas US$ 268,6 bilhões em 2001. Em outras palavras, os ganhos conseguidos nos anos iniciais do chamado Plano Cavallo foram totalmente perdidos nos últimos quatro anos.
Para enfrentar esta realidade, o país declarou moratória de sua dívida externa e continua em default na atualidade. Com isso, os ajustes externos estão pendentes, deixando o país na dependência de um amplo acordo com o FMI, avalista do capital internacional. Embora tal posicionamento dê uma aparente tranqüilidade, no que tange ao equilíbrio das contas públicas, não se pode esquecer que o mesmo é provisório, pois se está empurrando o problema para adiante, na medida em que as contas externas terão que ser, mais cedo ou mais tarde, honradas.
Um outro desafio do novo governo é recuperar a confiança dos próprios argentinos. Muita gente tem muito dinheiro, porém, ninguém deseja investir. O que estaria guardado pelos argentinos em casa seria o equivalente ao total das exportações do país num ano.
Por outro lado, o peso se valorizou em demasia nos últimos meses, freando as exportações do país. Nesta rubrica, a moeda argentina tem estado mais forte do que o real. Ora, em não havendo suficiente retomada das exportações e da economia interna, o desemprego aumenta. Neste quesito, cerca de metade da população do país está com problemas, com a taxa do desemprego oficiosamente chegando a 19,2%, em 2003, enquanto o subemprego bate nos 15,4%, afora aqueles que não constam mais das estatísticas.
Mesmo assim, o processo de estabilização da economia, empreendido através do Plano Cavallo, se não surtiu os efeitos esperados no final, trouxe uma lição que nenhum argentino esquece: inflação nunca mais. Ou seja, há uma nova geração de argentinos que jamais irá aceitar o retorno deste terrível flagelo econômico. Isto levou os diferentes governos do vizinho país a insistirem em não desvalorizar a moeda, mesmo sendo necessário. Havia o receio de que a economia retornasse à indexação cambial, alimentando a elevação dos preços.
O governo Kirschner, recentemente eleito, tem ainda dois grandes desafios imediatos. Demonstrar que a estabilidade política veio para ficar (normalmente a mesma é duvidosa, e o apoio às medidas oficiais não duram mais do que cinco meses) e convencer a população de que o liberalismo econômico não é tão ruim assim. Na verdade, os discursos liberais acabaram mal situados devido a crise em que o país se envolveu. Hoje, os argentinos querem mais Estado na economia, porém, a situação deste, na atualidade, não permite qualquer ação conseqüente neste sentido.
Na verdade, dentre tantos, dois graves problemas pressionam o Estado argentino. Em primeiro lugar, a elevada dívida interna e externa, sendo que a externa alcança algo em torno de US$ 170 bilhões, onde US$ 70 bilhões é de curto e médio prazos. Em segundo lugar, com a privatização das aposentadorias, o Estado obrigou o sistema a comprar títulos públicos, os quais não podem ser resgatados, deixando o sistema em estado quase falimentar.
A este conjunto de fatos, soma-se que ainda a carga tributária do país alcança cerca de 25% do PIB (uma cifra que dá inveja ao Brasil, porém, é considerada elevada para os padrões argentinos). Deste total, 90% seriam impostos indiretos.
Um agravante nisto tudo é que a Argentina não tem um planejamento de médio e longo prazo, tendo enfrentado a situação apenas com medidas imediatistas, as quais parecem continuar. Assim, se o novo governo não funcionar bem, a situação estagna e a tendência é a economia do país piorar, interrompendo o atual início de recuperação moderada. Segundo os analistas argentinos, a realidade só não é pior porque a grande crise que se anunciou, quando do choque cambial de novembro de 2001, acabou não ocorrendo. A inflação se manteve baixa e a economia iniciou um processo de recuperação, embora já esteja mostrando esgotamento. Neste último caso, porque o longo período de câmbio fixo acabou eliminando muitos setores produtivos, deixando o mercado interno muito pequeno. A tal ponto que os únicos setores eficientes e importantes se situam na Pampa Úmida, com a produção de grãos, e na província de Tacamarca, onde está o sistema extrativo de cobre (3º do mundo) e de ouro (8º do mundo).
Neste amplo contexto de transição, sem grandes vislumbres de melhoria no médio prazo, o Mercosul estaria sendo visto pelos argentinos como um tratado que parou no tempo, onde pouca coisa efetiva estaria acontecendo, além dos discursos políticos. Na prática, no interior da Argentina, apenas os setores alimentício, petroquímico e automotriz estariam sabendo o que realmente desejam com a integração econômica regional. Os restantes ainda não firmaram posição, estando muito mais preocupados com as questões específicas de economia interna.