Há algumas semanas, finalmente, os dados do último Censo Agropecuário do Brasil, realizado em 2006, foram divulgados. Dentre a série importante de informações ali existentes, destacamos o que segue. Em primeiro lugar, apesar de todo o trabalho de assentamentos agrários ocorrido no país, o máximo que se conseguiu foi estabilizar a concentração de terras em
relação aos censos de 1985 e 1995.
Assim, os estabelecimentos com mais de 1.000 hectares continuavam ocupando 43% da área total de estabelecimentos agropecuários no país enquanto aqueles com menos de 10 hectares ficavam com apenas 2,7% da área. Tal situação comprova que as políticas de assentamento, em média, não estão cumprimento seu papel.
Por um lado porque não basta apenas dar terras aos que a buscam, mas igualmente porque muitos que estão nos ditos movimentos sociais não estão interessados em obter terra, assim como os próprios movimentos, pelas ações realizadas, não demonstram estar interessados em caminhar nessa direção.
Em segundo lugar, o Censo mostrou que 36,7% do território nacional é ocupado por 5,2 milhões de estabelecimentos agropecuários, fato que dá a dimensão da importância desse setor para a economia nacional. E, a atividade da pecuária (bovino de corte e leite) é a mais praticada.
Ou seja, nosso país ainda é muito voltado à pecuária bovina. Em terceiro lugar, a área agrícola desses estabelecimentos recuou em 23,7 milhões de hectares em relação ao Censo anterior (1995). Mais áreas em conservação ambiental e mais demarcação de terras indígenas teriam sido as causas desse recuo.
As áreas indígenas chegam a 60 milhões de hectares no país, embora a produção primária ali seja diminuta. Entre 1995 e 2006 as propriedades registraram redução de suas áreas de florestas (-11%) e de pastagens naturais (-26,6%).
Ainda sobre o Censo Agropecuário (II)
Ao mesmo tempo, aumentaram as áreas de pastagens plantadas de 1,7 milhão de hectares (1,8%), sobretudo na região Norte (39,7%), enquanto aquelas dedicadas à agricultura cresceram 19,4%, sendo que o maior aumento ocorreu no Centro-Oeste (63,9%).
Ou seja, houve uma tecnificação importante no setor, fato que explica o aumento na produção primária nacional, particularmente em grãos. Todavia, o choque ambiental fica evidente, exigindo encontrar-se um denominador comum que permita produzir mais e melhor, sem continuar destruindo o meio ambiente.
Em quarto lugar e estarrecedor, a grande maioria dos produtores entrevistados era analfabeta ou sabia ler e escrever mas não tinha freqüentado a escola (39%), ou não possuía o ensino fundamental completo (43%), totalizando mais de 80% de produtores rurais com baixa escolaridade.
Ou seja, poderíamos avançar muito mais com o agronegócio brasileiro se investíssemos na formação do produtor rural. Aliás, um problema que é de toda a sociedade brasileira. Fala-se muito mas
pouco se faz nesse aspecto decisivo para o desenvolvimento de um país. Por outro lado, 18,9% da população brasileira ocupada, em 2006, ainda trabalhavam no meio rural, sendo que 77% ligadas a laços de parentesco com o produtor e 35,7% totalmente analfabetos.
Paralelamente, havia mais de um milhão de crianças com menos de 14 anos de idade trabalhando na agropecuária. Isso comprova que é necessária uma política que associe a educação com o trabalho agrícola, para que essas crianças se tornem jovens motivados a continuarem no meio rural.
Enfim, a soja foi que mais cresceu entre 1995 e 2006, aumentando sua produção em 88%, havendo 46,4% das propriedades semeando as variedades transgênicas.
E, confirmando ser apenas um nicho de mercado, somente 1,8% praticavam agricultura orgânica.