Apesar do aparente fracasso nas negociações ocorridas na Cúpula das Américas, realizada em Mar del Plata (Argentina), nos dias 04 e 05 de novembro, muitos assuntos vieram à tona e merecem atenção. Em primeiro lugar, existe o interesse em levar adiante as negociações da ALCA (Área de Livre-Comércio das Américas), junto à maioria dos países latino-americanos. Em segundo lugar, através de uma proposta mexicana, tratou-se de propor uma ALCA sem o Mercosul e a Venezuela (país que estará entrando no bloco sul-americano em 2006). Em terceiro lugar, o Brasil, numa posição pragmática, não apoiou o populismo dos presidentes argentino e venezuelano, se preocupando em não romper negociações com os EUA. Em quarto lugar, esta postura mostra que seria um enorme erro construir a ALCA e deixar os países do Mercosul de fora, assim como seria um enorme erro o Mercosul ter uma posição hegemônica isolacionista. Em quinto lugar, o Brasil negocia e deseja que haja maior abertura comercial dos EUA e do Canadá no que tange ao comércio de produtos agropecuários. Uma demanda justa e necessária, porém, que provoca condições. Em sexto lugar, os EUA aceitam a idéia, porém, à condicionam a uma redução substancial nos subsídios e protecionismos da União Européia. Em sétimo lugar, a ALCA e o acordo Mercosul-União Européia estão cada vez mais interdependentes, ou seja, um avança somente se o outro avançar igualmente. Em oitavo lugar, estes dois acordos somente avançarão se houver a construção de caminhos concretos para a redução do protecionismo comercial na Rodada de Doha, da OMC. Enfim, o avanço na Rodada de Doha está dependendo do sucesso da reunião ministerial que ocorrerá em dezembro em Hong Kong.
O Desafio do Biocombustível
O governo brasileiro acaba de lançar o Programa Nacional de Biodiesel. O mesmo obriga misturar, a partir de 2008, 2% de óleo vegetal (biodiesel) ao diesel derivado do petróleo, junto aos veículos em geral que utilizam o diesel como combustível. A partir de 2013 a lei obriga a misturar 5% de biodiesel ao combustível de petróleo. Para cumprirmos a primeira parte da meta, precisaríamos de um bilhão de litros anuais de biodiesel. Para a segunda parte, a oferta deste combustível vegetal deverá subir para 2,4 bilhões de litros anuais. Nestas condições, os produtores de oleaginosas, e particularmente os de soja, vêem uma nova alternativa econômica aparecer para a geração de renda agrícola. No entanto, a soja não é o principal gerador de biodiesel. Segundo cientistas brasileiros, esta oleaginosa produz apenas 400 litros de biodiesel por hectare, enquanto o amendoim produz 900 litros, o babaçu 1.600 litros, o dendê (palma) 5.900 litros, o girassol 800 litros, a mamona 1.200 litros, o pequi 3.200 litros e a macaúba 4.000 litros. Neste contexto, o Norte e o Nordeste deverão ter mais oportunidades para a geração de biodiesel, pela própria característica de suas produções. Ao mesmo tempo, os especialistas avançam que o Brasil precisaria tão somente de seis milhões de hectares cultivados com as diferentes plantas oleaginosas para alcançar o volume necessário de biodiesel apontado no atual Programa. Lembramos que apenas em soja, nosso país semeou, no ano passado, 23,3 milhões de hectares. Enfim, será preciso viabilizar economicamente a produção e a mistura do biodiesel. Hoje, o custo do diesel comum, apesar do aumento nos preços internacionais do petróleo, é de R$ 1,03/litro. O litro de biodiesel de mamona custa R$ 1,46; o de girassol R$ 1,35; e o de soja R$ 1,31.