Prezados senhores:
Diante do aprofundamento das negociações em torno da ALCA, aceleradas agora que o presidente dos EUA obteve a TPA, julgamos de fundamental importância colocar à disposição artigos e comentários a respeito. Neste caso, excepcionalmente, estamos divulgando dois artigos do professor Marcos S. Jank (publicados nas edições de 16/04/2002 e 13/08/2002 do jornal “O Estado de São Paulo”) por considerarmos os mesmos amplamente esclarecedores a respeito do assunto. Esperamos contribuir, assim, para qualificar o debate e o conhecimento técnico do tema no momento em que determinadas entidades e pessoas, no Brasil, tem se expressado em torno do tema sem conhecimento de causa, sem base científica e usando expressões e palavras completamente fora do contexto, prestando muito mais um desserviço à formação e educação dos cidadãos do que propriamente colaborando para que avancemos no estudo concreto do que significa estabelecermos uma integração econômica regional como a que está sendo proposta.
Podemos nos posicionar contrários a ALCA. Porém, se assim for o caso, que tal posição seja embasada cientificamente e não em cima de bobagens e disparates que um certo segmento da sociedade brasileira vem tentando inculcar nos cidadãos.
Prof. Dr. Argemiro Luís Brum
CEEMA/DECon/UNIJUI
A Complexidade das Negociações Internacionais
Marcos Sawaya Jank
Causa certo temor o despreparo da sociedade brasileira para lidar com as negociações simultâneas que o Brasil estará enfrentando nos próximos três anos: OMC, Alca e o Acordo Mercosul-União Européia. Nos EUA, esses são temas relativamente ausentes da opinião pública e da grande imprensa. Mas o país conta com uma secular "máquina negociadora" que agrega os interesses das grandes corporações multinacionais, vários órgãos da administração e o Legislativo, fora uma intensa pressão de ONGs e lobbies organizados. Além disso, há o suporte técnico permanente de think tanks e centenas de Ph.Ds. nas universidades e em órgãos de pesquisa, que geram um impressionante volume de estudos e análises sobre os efeitos dessas negociações sobre comércio, investimentos, empregos, etc.
No Brasil, de uns anos para cá os assuntos de política comercial definitivamente ganharam a primeira página dos jornais e devem agora entrar para valer na campanha eleitoral. O tema da Alca, por exemplo, vem despertando opiniões calorosas, quase sempre do tipo "oito ou oitenta", ou seja, a Alca seria "excelente" na visão de uns ou "péssima", na visão de outros. O primoroso artigo Alca: entre Wall Street e a CNBB, publicado por Marcelo de Paiva Abreu (Estado, 1.º/4, B2), mostra a pobreza da repetição de chavões País afora.
É importante a imprensa brasileira levar esse debate para as ruas. Essas negociações poderão definir boa parte do que o País vai ser daqui a 30 anos, e a imprensa precisa cumprir o seu papel. O que realmente preocupa é que a sociedade organizada e, particularmente, os nossos negociadores ainda carecem de um suporte mais efetivo por parte das entidades privadas e do mundo acadêmico.
Tome-se o exemplo da negociação de "acesso a mercados", o principal tema discutido em fóruns regionais de negociação do tipo da Alca e do Acordo Mercosul-União Européia. Recorde-se que o objetivo central da Alca é a formação de uma zona de livre comércio entre 34 países americanos, que se faz basicamente por meio da eliminação de todas as tarifas alfandegárias no comércio intrabloco. Todas? Não necessariamente. Os países podem colocar uma pequena quantidade de produtos - em geral até 15% do universo tarifário - em "listas de exceção" à zona de livre comércio, por se tratar de setores sensíveis às suas respectivas economias.
É aí que entra o "problema técnico" de conhecer ex-ante a sensibilidade das tarifas de cada país com que se está negociando. O assunto é extremamente complexo. O universo de tarifas de um país geralmente compreende cerca de 10 mil posições tarifárias definidas pela nomenclatura do sistema harmonizado (SH), desagregadas a oito ou mais dígitos. Ocorre que o sistema só permite comparações entre países num grau menor de desagregação, a seis dígitos. Por exemplo, a posição 240110 sempre será "fumo em folhas" para todos os países que adotam o SH. Só que a posição 24011065 é um subitem desse produto, definido como "Tobacco, not stemmed or stripped, not or not over 35% wrapper tobacco, flue-cured burley" pelos EUA e sem paralelo em outras listas, já que cada país define o que quer acima de seis dígitos. E é no oitavo dígito que residem os verdadeiros problemas. Nos EUA a posição 24011065 tem tarifa de 350%, mas o item de seis dígitos, que pode ser comparado internacionalmente, 240110 (fumo em folhas), tem tarifa equivalente de 42,5%. Portanto, as posições que são comparáveis internacionalmente normalmente já "deceparam" todos os "picos tarifários" existentes, que são essas tarifas pontuais altíssimas que aparecem no oitavo dígito. Este sugestivo exemplo do "fumo" ilustra com perfeição o que o Brasil vai encontrar pela frente nas mesas de negociação, se não se preparar adequadamente.
Não bastassem os picos tarifários, há ainda o problema das escaladas tarifárias, que é a presença de tarifas que crescem à medida que aumenta o valor adicionado do produto importado. Há igualmente o problema das quotas tarifárias, que são certas posições tarifárias "sensíveis" que contam com duas tarifas, uma bastante baixa para importações dentro de um pequeno limite prefixado (a chamada quota) e outra, absolutamente indecente, para tudo o que superar tal limite. O exemplo acima, do fumo em folhas, é um desses casos, mas nem todos os picos são quotas tarifárias.

