As pessoas, particularmente os mais radicais, dominados por dogmas ideológicos, têm dificuldades em entender que o Estado não pode abusar de seus gastos. Mesmo que estes sejam em favor da sociedade, o que nem sempre é verdade.
Isso porque, como em qualquer empresa, o Estado igualmente precisa ter despesas compatíveis com suas receitas, sob pena de quebrar e direcionar à sociedade um amargo remédio, com efeitos duradouros que consagram o atraso. O recente caso da crise na Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha, que nada mais é do que uma “crise dentro de uma crise mundial maior” confirma mais uma vez esta premissa.
Estes países abusaram de seus gastos, levando a um déficit orçamentário crescente e, particularmente, a uma dívida pública impagável (na Grécia tal dívida corresponde a mais de 120% de seu PIB). Com isso, ninguém mais quis financiá-la, temendo um calote generalizado. O país parou, sem recursos para sair do “buraco” e provocando um efeito dominó. Somente novos e importantes empréstimos externos, visando corrigir o rombo, poderiam recuperar lentamente a economia.
Ora, nessa situação ninguém empresta sem exigir condições de ajustes. Tal como faz acertadamente o FMI em relação aos países que buscam seus recursos. Nesse sentido, a União Europeia, bloco onde estão inseridos os países em crise, para emprestar mais de 30 bilhões de euros aos gregos e outro tanto aos demais países, faz duras exigências de ajuste nas economias destes países, as quais começam a ser postas em prática.
Amarga receita (II)
Dentre as medidas encontra-se a redução dos salários e das aposentadorias visando restabelecer a competitividade de seus orçamentos, estourados pela incompetência populista de seus governantes.
Na Grécia se anuncia uma redução de 30% no 13º salário e de 60% no 14º salário dos funcionários públicos. Em Portugal, os salários públicos estão congelados a partir de agora. Os valores das aposentadorias igualmente estão na mira do governo no momento.
Tudo isso porque o populismo oficial do passado elevou o nível de vida dos gregos, por exemplo, acima de suas possibilidades. Assim, tais países, conhecidos hoje pela sigla PIIGS (incluindo aí a Itália também) acumularam déficits insustentáveis, tendo por conseqüência uma grave perda de competitividade pelo aumento da inflação interna. Reduzindo a massa salarial do serviço público eles atacam os dois problemas.
Obviamente, tais medidas criaram reações violentas da população atingida, que não quer perder as benesses conseguidas. Ou seja, é muito bonito aplaudir e desfraldar bandeiras em apoio à medidas populistas, que geralmente são de curto prazo e quebram o país no longo prazo. O problema é aceitar pagar a conta posteriormente, tomando para si o remédio amargo que o conserto exige.
O caso da Venezuela e da Argentina, para citar dois na América Latina, é emblemático nesse sentido. Se o Brasil não cuidar, entra no mesmo caminho logo mais! Mas a situação não pára por aí: mesmo as medidas corretivas têm efeitos que exigirão ainda mais esforço da sociedade.
É o que veremos no próximo comentário!