Roberto Barreto de Catende – 18.10.2005
Conta-me minha filha que caminhava na Avenida Lins de Vasconcelos, bairro do Cambuci, em São Paulo, quando presenciou uma inusitada troca de idéias. Um casal, em idade de brigar por pirulitos, observava pitangas caídas da pitangueira, é claro, sobre a calçada, e a menina explicou ao menino que aquilo lá no chão era tomate. O pimpolho contestou a afirmação dizendo que a garota não sabia de nada, pois aquele negócio era caqui. E foram em frente, aos gritos de vovó, vovó, vovó, provavelmente em busca de uma opinião sensata para acabar de uma vez com a dúvida. Fico a imaginar o que sairá no dia em que a dupla se deparar com um daqueles jerimuns pescoçudos, em exposição na quitanda do Manuel, que será convidado a descascar a abóbora para mostrar a diferença entre a sua semente e os caroços de uma jaca e de um abacate.
A historinha me fez lembrar de uma outra conversa por mim presenciada na Avenida Paulista, diante de uma daquelas 150 vaquinhas de fibra de vidro, estilizadas por artistas, que participam da VacaParada (CowParade, em inglês) e enfeitam a megalópole até o próximo dia 31 de outubro. Nesta data, uma delas mugiu pra mim, elas fugirão de São Paulo, com medo das bruxas de Haloween. Mas, voltando à vaca fria, o papo que escutei foi entre um menininho, também em idade de pirulito, e seu papai, obrigado a responder às perguntas a seguir. Uma vaca é assim mesmo, pai? De que ela é feita? Por que ela é toda pintada? Por que pintaram um boi em cima dela? Ela dá leite por onde? A gente pode beber o leite quando sai das tetas? Quanto leite sai das tetas? Por que de manhã? As respostas, na seqüência. É assim mesmo, mas a vaca de verdade é viva, ela se mexe. Acho que é de algum tipo de plástico. Coisa de arte, filho. O artista quis fazer uma homenagem ao marido da vaca. Por aqueles quatro bicos ali embaixo, chamados tetas. Até pode, mas é melhor ferver o leite antes de tomar. Uns dez litros, toda manhã. Porque de manhã ela está bem disposta.
Ao redor de pitangas e vacas, vemos quão distanciados estão os urbanóides do mundo rural, malgrado a luta do pessoal do campo para conscientizá-los sobre a importância dos grãos e frutas para a sobrevivência da cidade. O próprio Roberto Rodrigues, bem antes de assumir a pasta que cuida dos pepinos, entre outros frutos de trepadeiras, sempre reclamou do tratamento injusto que é dedicado aos produtores rurais. E com razão, pois, sem o algodão, andaríamos nus; sem a cana-de-açúcar, adeus caipirinha; sem o trigo, era uma vez a pizza; sem a carne bovina, os gaúchos dificilmente sobreviveriam; sem o cavalo, Doda não teria achado Athina Onassis; sem o galo, Duda não seria viciado em rinha; sem a galinha, meu primo não chamaria calvo de cabeça de ovo; sem a soja, não existiria shoyu e, sem shoyu, ninguém agüentaria tofu; sem o milho, a dona de casa não suaria em bicas mexendo a polenta; sem o fumo, você não inventaria certos trocadilhos infames. Enfim, a nossa dependência dos produtos da terra é total.
Está, portanto, mais do que na hora de promoverem campanhas para que nenhum gurizinho saia por aí confundindo pitanga com caqui, assim como adulto mentindo sobre predisposição de vaca. Eu mesmo estou precisando de umas aulas, pois, dia desses, me perguntaram de onde vem o uísque e respondi na lata: do Paraguai.