Felizmente, apesar de tarde, as questões relativas à preservação ambiental, tem sido gradualmente mais discutidas nos dias atuais, mas muito ainda terá que ser feito, especialmente do ponto de vista de educação e conscientização da população. Nos últimos anos, tem-se observado com certa freqüência que as discussões tem sido conduzidas ou direcionadas no sentido de identificar um culpado pelos impactos ambientais atuais, especialmente no que diz respeito ao recurso água. Alguns setores da sociedade organizada têm liderado estas discussões e apontado a agricultura como sendo o grande vilão da crise de água (redução na disponibilidade e qualidade) verificada em algumas regiões. E dentro do setor agrícola, claramente, a atividade arroz irrigado tem sido alvo das críticas mais contundentes, principalmente por setores ou pessoas que sequer conhecem a atividade e insistem em não observar o que está acontecendo em sua volta na nossa sociedade, com concentrações urbanas cada vez maiores.
É verdade sim que a disponibilidade de águas superficiais foi reduzida de maneira generalizada neste último ano, e em algumas regiões como no litoral de Santa Catarina, há vários anos. No entanto, é equivocado imputar ao produtor de arroz toda a culpa. A falta de água é resultado de vários fatores como: redução no volume de chuvas e conseqüente redução na vazão dos rios e, aumento no número de usuários (urbanos e rurais), entre outros. É importante ressaltar que, em Santa Catarina, a precipitação média anual histórica é superior a 1500 mm. Todo este volume de água acaba nos mares e, no entanto, continuamos com uma cultura extrativista, tanto para a agricultura como para serviço público de abastecimento, onde predomina a captação de água de passagem nos rios, esquecendo-se totalmente de um princípio básico, o qual até seres irracionais adotam, que é o de armazenar em períodos de abundância para garantir o abastecimento no período de escassez. Muitas cidades brasileiras, especialmente as localizadas na faixa litorânea, apresentam crescimento populacional elevado e no período de verão, em alguns casos, a população tem se multiplicado por fatores de cinco a dez. Como conseqüência, facilmente ocorrem crises no abastecimento, pois não dispomos de armazenagem estratégica e a agricultura passa a ser, novamente, a vilã da história.
Com freqüência constatam-se ainda, informações de que a qualidade das águas está cada vez mais comprometida e que o arroz irrigado seria o principal responsável por contaminar nossos rios com agrotóxicos. Isto também não corresponde à realidade. Preocupada com a questão do impacto ambiental do arroz irrigado, a Epagri, em parceria com a Embrapa e a Univali, no período de 1998 a 2001, conduziu um projeto de pesquisa no sentido de avaliar o possível impacto que o arroz irrigado estaria causando na qualidade das águas, incluindo o monitoramento dos resíduos de agrotóxicos utilizados na cultura do arroz. Os estudos mostraram que a água liberada das lavouras na fase de preparo do solo causa aumento de turbidez em alguns rios. No entanto, os maiores níveis de turbidez foram verificados por ocasião das enxurradas que conduzem para os rios todo tipo de detritos e lixo largados de forma inadequada no ambiente. É importante considerar aqui a erosão em áreas descobertas de vegetação, incluindo ás áreas de retirada de terra e os aterros urbanos. Além do mais, constatou-se que os esgotos domésticos constituem-se num dos principais responsáveis pela degradação da qualidade das águas. Destaca-se aqui que no caso do rio Camboriú, onde foram realizados estudos mais detalhados, o grande impacto na qualidade das águas é o resultante da urbanização, principalmente dos esgotos não tratados adequadamente.Vale lembrar que, o consumo médio diário de água por habitante é de 150 a 200 litros, os quais liberados diretamente na forma de esgotos, contaminam cerca de mil litros de água. Deve-se considerar também que no meio urbano, existem um grande número de atividades com elevado potencial de poluição que estão sendo esquecidos nesta discussão, incluindo indústrias, postos de combustíveis, etc. O Estado de Santa Catarina, segundo dados recentes do IBGE, ostenta um dos percentuais mais baixos entre todos os estados brasileiros de tratamento de esgotos, ou seja, apenas 13% das residências catarinenses estão ligadas à rede de esgotos.
Os resultados do monitoramento de resíduos de agrotóxicos realizado em água bruta (não tratada) pelo projeto desenvolvido pela Epagri nas áreas que cultivam arroz irrigado indicaram que, de maneira geral, nossas águas atendem a legislação vigente no país.
Ainda preocupada para que o produtor de arroz possa continuar a produzir, mas de maneira cada vez de forma mais eficiente e sem prejudicar o ambiente e principalmente, sem poluir as águas, a Epagri lançou no ano de 2003, uma cartilha para orientar os produtores sobre o uso de práticas para a produção de arroz com baixo impacto ambiental. Neste sentido, sugerimos aos agricultores, entre muitas outras práticas que a armazenagem de água em períodos de abundância, constitui-se numa prática de importância fundamental a ser adotada por todos. Este exemplo deveria também ser seguido pelas empresas responsáveis pelo abastecimento público em Santa Catarina. O mais importante de tudo isso, é que todos os cidadãos e cidadãs, e instituições são responsáveis pela preservação e proteção das águas e do ambiente. Se cada um fizer a sua parte, todos, sem exceção, serão beneficiados, e principalmente as gerações que nos sucederão neste planeta.
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