A aceleração da globalização no mundo nos faz chegar, em tempo real, as evoluções da economia internacional. Assim, os efeitos das mudanças na economia, que são constantes, nos envolvem completamente. Nos últimos 25 anos, em termos mundiais, tais efeitos se inserem no contexto de um modelo econômico conhecido como de livre mercado. Nele, a competição se faz mais presente, tendo como árbitro não mais o Estado mas sim a qualidade dos produtos e serviços ofertados pelo melhor preço, num contexto de eficiência competitiva.
Neste quadro, as regiões buscam participar do processo, visando uma inserção na economia global via o crescimento econômico que permita alavancar o seu desenvolvimento. A idéia não é resistir ao quadro mais amplo mas sim criar as condições para dele participar de forma positiva, tirando igualmente vantagens econômicas que possam ser revertidas em avanços sociais sustentáveis. Para tanto, no que diz respeito às empresas, o objetivo é produzir, comercializar e reinvestir, se apoiando tanto no mercado interno quanto no externo.
O desafio, especialmente para as pequenas empresas, é resolver os problemas de gestão, num contexto altamente dinâmico, competitivo, interdependente e inter-relacionado. Neste sentido, diversas formas de organização das empresas regionais acabam surgindo, dentre elas os clusters (agrupamentos de elementos comuns para um determinado fim que, na área industrial ou comercial, assumem a forma de agrupamentos ou ramos industrial/comercial dedicados à exportação/comércio que tenham alguma característica comum), os sistemas locais de produção-SLPs (modo pelo qual se organiza a produção industrial, agrícola ou de serviços comuns de uma região), ou ainda as redes de cooperação (interligação de empresas, particularmente as pequenas e médias, de uma mesma área, visando cooperar para melhor produzir, comercializar, exportar, importar....). Já o BNDES, no contexto de seus programas de apoio, fala de arranjo produtivo local e o define como sendo uma concentração geográfica de empresas e instituições relacionadas a um setor/complexo industrial, incluindo fornecedores especializados e as mais variadas entidades que provêem educação, informação, conhecimento e/ou apoio técnico a tal segmento produtivo. Estas formas, que acabam se confundindo na sua prática, permitem às empresas uma melhor capacidade de se organizarem.
No que diz respeito às redes de cooperação, as mesmas geram uma melhor capacidade para se definir o contexto desfavorável no qual a empresa evolui, o qual é marcado por um forte movimento de concentração (de clientes, de concorrentes, de fornecedores...) e por uma inversão das relações de força entre produtores e distribuidores. Neste último caso, tendo como desafio a necessidade de investimentos importantes para modernizar o processo produtivo e a competitividade via a informatização e a gestão da logística.
Constata-se que as empresas familiares, quando bem organizadas, resistem melhor ao processo pois tendem a estruturar uma direção mais estável, desde que competente, aberta ao exterior do seu mundo local e, ao mesmo tempo, possuam um funcionamento adaptado aos novos tempos. Neste sentido, avançar em redes de cooperação é ampliar a escala e a competitividade dentro do processo econômico global. Na prática, dentre outras coisas, ter a sabedoria para buscar capital para além do familiar, quando necessário.
Ora, a globalização levou as grandes empresas a se profissionalizarem fortemente; a se concentrarem num grupo muito limitado de atividades (a Danone, por exemplo, se concentra hoje em três grandes atividades: produtos lácteos, água mineral e bolachas); e a trabalharem num processo muito mais seletivo/excludente. Estes aspectos são mais agudos sobre as pequenas e médias empresas, se constituindo em outro grande desafio para sua sobrevivência. Com a desvantagem de que a demanda por grandes investimentos é melhor amortizada pelos grandes grupos.
Assim, no futuro, as pequenas e médias empresas, especialmente as de natureza familiar, irão enfrentar uma realidade ainda mais difícil. Mas sua manutenção é possível e desejável, desde que construam eficazmente seus sistemas de redes de cooperação. Uma das grandes vantagens das mesmas, e das regiões que as acolhem, é o fato de que existe uma criatividade inerente a estas empresas, as quais desenvolvem um conceito de estabilidade, levando em conta as repercussões locais de suas decisões. Algo muito difícil de encontrar junto às grandes empresas, especialmente as transnacionais.
Para tanto, dois grandes desafios merecem destaque. Em primeiro lugar, que o Estado continue apoiando os mecanismos construídos nesta direção, através de políticas mais favoráveis no contexto da imposição (impostos, taxas e tarifas) e da formação das pessoas. Em segundo lugar, que as pequenas e médias empresas aceitem as mudanças profundas que ocorrem, se dotando de uma dimensão internacional, quando necessário, e que aceitem a diluição de seu capital quando for o caso.
Enfim, redes de cooperação, e outras formas de organização empresarial local, não devem servir como meio de resistência à globalização e internacionalização da economia, sob pena de isolamento e fracasso, e sim se constituírem como mecanismos de organização e orientação das pequenas e médias empresas regionais para que possam se inserir e participar da economia globalizada, valorizando suas especificidades.