Cuidado. Esses temerosos tempos de aquecimento climático provocam uma perigosa mistura de neurose ecológica com preconceito cultural. Basta ver o caso da pecuária. O coitado do boi está sendo esculachado. Seu arroto virou crime.
Verdade não se esconde. No processo de ruminação, característica dos animais vegetarianos de duplo estômago, como os bovinos e ovinos, resulta a produção de gases. Quando arrotam, as vacas libertam metano, um gás que é 23 vezes mais nocivo, quanto ao efeito-estufa, que o dióxido de carbono.
Desgraçadamente, o feijão, entre outros ótimos alimentos, causa problema semelhante para humanos. O metano é subproduto da fermentação anaeróbica, quer dizer, aquela verificada na ausência de oxigênio. Estufou, precisa sair. Muitas rodas sociais já se prejudicaram por este desleixo da vida.
Até aí, tudo bem. Ocorre que, pela internet, circula a informação de que uma vaca pode arrotar até 500 litros de metano por dia. Haja atmosfera que agüente. Considerando-se que o rebanho bovino, mundial, atinge 1,4 bilhão de cabeças, tal volúpia gasosa é altamente condenável. Morte às vacas!
Procurando outra solução, o cientista Winfred Dochner, da Universidade de Hohenheim, Alemanha, criou uma pílula anti-arrotos, denominada "bolus", para receitar aos bovinos. Tecnologia veterinária de última geração. Chega a ser engraçado.
O assunto, porém, é muito sério. E enganoso. Pense bem: como poderia um animal expelir 500 quilos de gás por dia, se ele, o bicho inteiro, ossos e músculos, pele e tripas, geralmente pesa menos que isso? Será possível arrotar mais que seu próprio volume?
Nem Einstein explica. Trata-se, é óbvio, de uma falácia. Segundo cálculos, sérios, da Embrapa, um boi libera cerca de 60 quilos de metano, não por dia, mas a cada ano. Por dia seriam quase 30 gramas, e não 500 quilos. Enorme diferença.
Contra o boi, ou sua digníssima vaca, existe ainda forte polêmica sobre o custo ambiental de sua carne. O problema reside no consumo de água pelo rebanho. Segundo propagado, a produção de um quilo de carne bovina exige 15 mil litros de água. Fazendo as contas, uma pessoa que mastigue 200 gramas de carne estará contribuindo, por dia, para o consumo de 3 mil litros do precioso bem. Será verdade?
Claro que não. O antiecológico bife aguado é outro engodo do raciocínio, uma conta de bocó. Comprado barato por conhecidos formadores de opinião, o cálculo considera a quantidade total de água que um animal bebe em toda sua vida. Dividido pelo peso de abate, surge o número mentiroso. Onde está o erro?
No xixi do boi. É fato elementar de que o bicho, por muito beber, urina várias vezes no dia, fartamente. Aliás, assim também procedem os humanos. Se a água ingerida fosse sempre armazenada, aquele número assustador estaria correto. Ocorre que, ao fazer pipi, o animal recicla a água no ambiente. Não gasta coisa nenhuma.
Entidades ambientalistas e até mesmo gente da FAO entraram nessa onda de combater o desperdício de água culpando a agropecuária. Já fizeram a conta mostrando que a produção de um único hambúrguer exige tanta água quanto 40 banhos de chuveiro. Balela total.