A euforia com os biocombustíveis sofreu um duro golpe nestas últimas semanas, após a divulgação de um relatório encomendado pelo governo francês. O mesmo indicou que praticamente todos os atuais biocombustíveis produzidos e utilizados no mundo são mais poluentes e nocivos ao meio ambiente do que o petróleo. Em primeiro lugar, na grande maioria dos países a produção de biocombustíveis ocupa as terras que são utilizadas para a produção de alimentos.
Além, igualmente, de invadirem áreas de florestas. Em segundo lugar, o que seria um balanço até certo ponto positivo em relação aos biocombustíveis, pode se transformar rapidamente, na prática, em algo catastrófico para a humanidade, segundo o relatório. Em terceiro lugar, o estudo, preciso e objetivo, mostra que na hipótese dos biocombustíveis serem produzidos mediante áreas desmatadas em zonas tropicais, a situação é crítica.
O biodiesel de colza/canola, por exemplo, acusa uma quantidade de carbono nocivo duas vezes superior ao que existe atualmente com o uso do combustível fóssil (petróleo). Além disso, a quantidade de óleo de colza que passa a ser transferida para a produção de biodiesel, e que seria para o consumo humano, acaba tendo que ser substituída pelo óleo de palma num grande número de países.
Óleo de palma este que se origina de regiões da Indonésia e Malásia, onde o desmatamento é intenso e ficará ainda mais agudo. Nesse momento, o biodiesel de colza é o principal produto utilizado pelos europeus. Ora, dois milhões de hectares de terras próprias para a produção de alimentos têm sido utilizados para a produção desta energia que, agora, se detecta como sendo mais poluente e nociva ao meio ambiente. O etanol de cana-de-açúcar, caro ao Brasil, mobiliza 80% de energia para a sua produção, muita coisa ainda em petróleo.
Biocombustíveis em dúvida(II)
Na sequência se encontram os bioetanois de milho, trigo e de beterraba, além do biodiesel oriundo do girassol, da colza e da soja, esse último muito valorizado no Brasil no momento, os quais conseguem um ganho, em termos de emissão de gás efeito estufa, da ordem de 60% a 80%, em relação ao petróleo, enquanto provoca economia de energia, a partir do seu processo de fabricação, da ordem de 50% a 80%.
Ora, um biocombustível para ser compatível com o que se deseja em termos de proteção ao meio ambiente deve permitir uma redução de 35% de gás efeito estufa, em relação ao petróleo que ele busca substituir já em 2010 e de 50% em 2013, segundo o mesmo relatório. Assim, o mundo precisa muito cuidado nas alternativas que vem encontrando para substituir o petróleo.
Os discursos políticos acabam ultrapassando o ponto científico e induzindo a sociedade de que produzir biocombustível é a melhor solução para a ecologia global. Os recentes estudos vêm mostrando, em termos mundiais, que não é bem assim. Obviamente, alguns produtos, como o etanol de cana, ainda possuem alguma vantagem sobre os demais, particularmente no Brasil, porém, está longe de ser a panacéia para os problemas existentes em torno do tema.
Na ânsia de querer encontrar alternativas economicamente viáveis ao petróleo, corremos o risco de poluir ainda mais o Planeta. É preciso, portanto, deixar a ciência evoluir mais, antes de nos lançarmos em práticas duvidosas. Um dia, certo, precisaremos substituir o petróleo, porém, por enquanto os estudos indicam que se torna mais sábio controlar melhor o uso deste combustível do que se lançar a tentar gerar, em escala comercial, alternativas que começam a se comprovar, em boa parte dos casos, piores.
Não podemos nos permitir fazer qualquer coisa e de qualquer jeito usando como motivo a defesa do meio ambiente.