O governo brasileiro começa a se perder em ações populistas que, se adotadas definitivamente, irão reforçar o déficit público, comprometendo a estabilidade econômica. O caso mais emblemático e absurdo nesse sentido acaba de ser anunciado, como balão de ensaio aparentemente. Trata-se da criação de um programa bolsa-celular ou vale-celular para as famílias que estão no programa bolsa-família.
Um supérfluo que, pelos cálculos iniciais, irá custar quase R$ 100 milhões no primeiro mês e R$ 77 milhões nos meses seguintes. Isso porque, além do celular, o governo doaria a estas famílias, mensalmente, R$ 7,00 de crédito para o uso do aparelho. No ano, o total dos gastos somaria R$ 947 milhões e até mesmo mais do que isso, pois o governo já cogita de doar até dois celulares por família.
Enquanto isso, os aposentados não ganham o reajuste merecido e necessário; os produtores de trigo não conseguem vender seu produto nem mesmo pelo preço mínimo, embora uma produção que até surpreendeu em qualidade; os investimentos em infraestrutura empacam (o apagão desta semana foi um claro exemplo); e a saúde e educação nacional penam para obterem um pouco mais de recursos visando melhorarem seus serviços. Dos disparates do atual governo, este do bolsa-celular chega em primeiro lugar.
Se o governo não souber dar um basta nesse populismo “barato” que, infelizmente, começou a grassar nos últimos meses, a nação brasileira pagará muito caro nos próximos anos, particularmente os jovens que serão a futura geração a comandar o Brasil.
A crise continua presente
Embora seja um fato de que o Brasil esteja saindo da crise, não se pode ignorar que a mesma nos atingiu e continua presente no dia-a-dia. Assim como em outros países, repito que nossa saída atual da crise (nada permite dizer que estamos saindo definitivamente) se deve ao fato do governo injetar recursos públicos na economia, com os sérios efeitos colaterais aqui já comentados em outras oportunidades.
Agora, esse apoio oficial termina e o mercado parece não demonstrar forças para reagir. E não podemos nos enganar com as cifras que são divulgadas. Embora positivas, a maioria indica que paramos de cair e começamos uma lenta recuperação, que levará tempo para alcançar os patamares anteriores.
Por exemplo: a produção industrial brasileira cresceu 0,8% em setembro, comparativamente a agosto. Todavia, a produção está muito abaixo do que se verificava no pré-crise, já que em comparação a setembro de 2008 o recuo de nossa produção industrial é nada menos do que de 22,3%.
Assim, todo o cuidado é pouco e não podemos nos deixar enganar pelo ufanismo de setores do governo, os quais estão muito mais para um populismo pré-eleitoral do que realmente no contexto do racional.
Mercosul continua regredindo
Além da entrada iminente da Venezuela, que nesse momento pouco ou nada agrega ao bloco, as disputas comerciais entre Brasil e Argentina não se resolvem e o protecionismo no bloco se desenvolve, contrariando o objetivo da formação de uma integração econômica, que é liberar o mercado regional.
A tal ponto que, confirmando nossos últimos comentários a respeito, os empresários brasileiros já estão pressionando o governo para “reinventar” o Mercosul.
Tal processo, na verdade um retrocesso na ideia inicial, se daria pelo fato de consolidar apenas uma zona de livre-comércio, abandonando o objetivo da união aduaneira e do mercado comum, estágios superiores da integração. Isso tudo porque os países vizinhos, seguidamente, estão provocando desvios de comércio ao substituírem produtos brasileiros, via protecionismo, por produtos procedentes da China, do México e da Ásia em geral.
E a crise política, onde o populismo impera na maioria dos países membros, associada a uma brutal crise econômica, particularmente na Argentina, no Paraguai e na Venezuela, em nada ajudam a consolidar o bloco, que foi concebido como uma ideia importante para fortalecer a região sul da América, no contexto de um mundo globalizado e cada vez mais interdependente.
Mais uma vez, as características do subdesenvolvimento local nos puxam para o retrocesso!
Feira do livro em Porto Alegre vende menos
Os organizadores da importante Feira do Livro de Porto Alegre buscam explicações para o recuo em 17% nas vendas em relação a 2008.
Das cinco explicações até o momento avançadas (falta de variedade; concorrência com os grandes; concorrência com a web; mesmice; e atendimento despersonalizado), nenhuma realmente atinge o ponto central, ou seja, as pessoas estão realmente cortando despesas diante da crise econômica que continua presente em nosso meio.
Como o setor literário não recebeu apoio do governo, na linha do que os automóveis, os eletrodomésticos e a construção civil receberam, os brasileiros buscam cortar lá onde julgam ser supérfluo.
Ora, em nosso subdesenvolvimento, comprar e ler livros ainda são atos pouco comuns, pois nos falta formação para desenvolvermos o interesse pelo saber. Assim, nada mais lógico do que, infelizmente, deixar de lado a compra destes produtos que, realmente, para o poder aquisitivo de nossa população ainda são muito caros.
Seria muito mais sério e importante que o governo criasse um bolsa-livro amplo do que lançar propostas absurdas do tipo bolsa-celular, como acabamos de conhecer nesses últimos dias.
Mas a prioridade, no momento, é eleger a senhora Dilma Rousseff e não formar e preparar a nação brasileira para o futuro.