Como era esperado, a Bolsa de Valores brasileira (Bovespa/BM&F) vem encontrando enormes dificuldades para decolar neste ano. Alguns analistas esperavam que a mesma rapidamente pudesse recuperar os melhores níveis obtidos em maio de 2008, quando ultrapassou os 73.000 pontos.
Todavia, dois anos depois, confirmando os alertas de que a crise era profunda e de lenta recuperação, nossa Bolsa, mesmo tendo se aproximado deste índice em alguns momentos deste primeiro quadrimestre, voltou a sentir os efeitos da crise mundial.
O estouro das economias de alguns países da zona euro, a começar pela Grécia, com potencial continuidade no Portugal, Espanha, Irlanda e Itália, não tem dado tréguas. Assim, o índice Bovespa fechou em apenas 66.511 pontos no dia 27/04, chegando a 67.978 pontos no dia 29/04.
Com isso, as ações no Brasil encontram um nível de resistência importante ao redor dos 70.000 pontos. Nesse contexto, terminado o quarto mês do ano, o desempenho da Bovespa, após liderar em recuperação no ano de 2009, é um dos piores junto às principais bolsas mundiais em 2010.
Bovespa continua patinando (II)
Até o dia 28/04 a Bovespa registrava perdas de 2,19%, somente superando a bolsa espanhola, que devido a enorme crise da Espanha, amarga perdas superiores a 14% nestes primeiros quatro meses do ano.
As demais principais bolsas mundiais registram ganhos, sendo que Wall Street acumula 6,77% positivos no período, o Nasdaq 9,21%, o Nikkei japonês 4,3%, a bolsa inglesa 4,6% e a da Alemanha 2,13%.
Ou seja, como a especulação foi demasiada em 2009, diante de uma economia brasileira que suportou razoavelmente bem a crise, agora o mercado corrige “o tiro” freando os ganhos na Bovespa. Além disso, não se pode esquecer que os juros voltaram a subir no Brasil e estamos em ano de eleições presidenciais.
Duas situações que não agradam os aplicadores em Bolsa, particularmente o capital financeiro especulativo.
Privatizações e custos
Se é verdade que as privatizações geralmente levam a ganhos importantes de qualidade, eficiência e tecnologia aos consumidores, também é verdade que, em falhando o controle das agências reguladoras, criadas pelo Estado para evitar abusos de poder econômico dos setores privatizados, os custos dos serviços prestados podem disparar e se tornarem um forte motivo de exclusão social, assim como de freio ao desenvolvimento desejado.
O caso da internet no Brasil, nesse momento, vem confirmando esta assertiva. Hoje, o acesso à banda larga, instrumento essencial para a inserção das pessoas ao mundo da informação globalizada, é 10 vezes mais caro do que nos países desenvolvidos, com os brasileiros gastando 4,58%, em média, de suas rendas mensais (cf, IPEA).
Na origem deste problema, além do poder oligopolista que se estabelece no setor, temos os altos impostos, que penalizam a economia nacional como um todo, e o fato do serviço prestado (banda larga) atingir um mercado ainda muito pequeno no país (apenas 3,1% dos lares).
Isso significa dizer que se torna fundamental dar condições de acesso a um maior número de brasileiros, assim como melhorar (não aumentar!) a regulação estatal sobre o setor. Por outro lado, por falta de investimentos adequados em infraestrutura geral no país, onde o custo do Estado atrapalha, os custos igualmente sobem. Afinal, enquanto o Brasil tem uma média de conexão de um megabit por segundo, países como Japão e a Coreia do Sul chegam a conexões de 100 megabits por segundo.
Assim, se privatizar foi importante para acompanhar a evolução tecnológica mundial e inserir o país no mundo globalizado, também é fundamental que os investimentos tecnológicos aconteçam na mesma rapidez internacional, sob pena de estacionarmos na parte do mundo que pouco evolui e, portanto, não consegue sair do subdesenvolvimento.
Ainda o câmbio
Um dos temas recorrentes neste país é a taxa de câmbio do Real em relação ao Dólar dos EUA. Neste final de abril, nossa moeda voltou a se valorizar fortemente, chegando a R$ 1,73 por dólar. Pela paridade de poder de compra de janeiro de 1999, momento em que ingressamos na era do câmbio flutuante, a sobrevalorização do Real alcança 24,8% atualmente, já que o valor médio de paridade estaria em torno de R$ 2,16.
A forte entrada de dólares no país, particularmente especulativos, é uma das razões. Agora, o principal motivo continua sendo o fato dos EUA, desde 2004, deixarem sua moeda perder valor diante das moedas mundiais, visando corrigir seu déficit comercial e a dívida pública, ambas altíssimas.
Esse jogo não deverá mudar tão cedo, fato que leva o governo brasileiro, como salienta o ministro Mantega, a estudar alternativas para reagir à sobrevalorização do Real já que alterar o sistema cambial seria uma temeridade na lógica da manutenção da estabilidade econômica.
Caso contrário, nossas exportações continuarão a diminuir, em relação às importações, gerando um saldo cada vez menor e prejudicando um dos setores de empuxe da economia que é a produção para o mercado externo.
Além de reduzir impostos na exportação, o governo poderia aumentar mais ainda o IOF sobre operações financeiras especulativas, confirmando que os 2% decididos meses atrás não foram suficientes para este fim.