O governo brasileiro acaba de adotar novas medidas visando conter a sobrevalorização do Real perante o dólar dos EUA. A moeda nacional, efetivamente, chegou a bater, em alguns momentos destes últimos dias, abaixo de R$ 1,65. Todavia, as ações realizadas, embora ajudem no curto prazo a frear um pouco o processo (novo aumento do IOF sobre investimentos estrangeiros em renda fixa, passando-o a 6%; e aumento de 0,38% para 6% no IOF incidente sobre as garantias depositadas pelos investidores do Exterior no mercado futuro), acabam se caracterizando como uma operação paliativa. Ou seja, diante do tamanho do problema, o governo brasileiro está, por enquanto,“enxugando gelo”. Nesse contexto, entra também a compra de dólares visando conter a queda da moeda estadunidense (nossas reservas ultrapassaram a US$ 280 bilhões nestes últimos dias), já que a solução para o problema não depende apenas de medidas internas pontuais, como as citadas. Em alguns comentários passados já fizemos alusão ao que está ocorrendo no mundo nesta área: uma verdadeira guerra cambial, discurso posteriormente usado pelo próprio governo. Nestas condições, também não resolveria sair pela tangente, usando um caminho teoricamente “mais fácil”, ou seja, abandonar o regime cambial flexível e passarmos a controlar arbitrariamente a taxa cambial no país. Esse procedimento já foi feito no passado e não resultou em grandes benefícios, pois com o tempo artificializamos o câmbio e esgotamos nossas reservas.
Câmbio: enxugando gelo (II)
Na prática, a solução passa necessariamente por dois caminhos, todos os dois de difícil execução. O primeiro, de natureza externa, nos obriga a defender uma concertação internacional entre os principais países do mundo (talvez em torno do G20), para que, em conjunto, tais países trabalhem para elevar o valor do dólar no mercado internacional. Isso exige convencer os EUA a participar de tal estratégia, fato que por enquanto está longe de ser evidente. Todavia, a reunião do G20, na Coreia do Sul, neste próximo mês de novembro, pode dar início a um processo desta envergadura. O segundo caminho, que não exclui o primeiro, embora mais importante para o Brasil, passa pela necessária realização das reformas estruturais na economia e no Estado brasileiro em geral. Nesse caso, a entrada maciça de dólares não está se dando pelo sucesso de nossa economia em se manter estável, embora isso ajude. Mas sim, pela nossa incapacidade de realizarmos as reformas. Sem elas, a dívida pública nacional cresce assustadoramente, se aproximando de R$ 2,0 trilhões ou 2/3 do PIB. Para rolá-la o governo vende títulos públicos, indexados na Selic. Ora, para serem atrativos, a Selic deve se manter elevada (10,75% ao ano nesses primeiros dias de outubro). Juros elevados atraem mais dólares, particularmente os especulativos, fato que sobrevaloriza constantemente o Real. Em outras palavras, estamos diante da necessidade de dois imensos ajustes estruturais para corrigir o câmbio no país, a fim de que a paridade de nossa moeda volte ao normal, hoje algo o redor de R$ 2,32.